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Gazeta Itapirense

O silêncio também é uma política: reflexões no Julho das pretas, por Hellen Santos

Traço Feminino

 Um espaço acolhedor que trará de forma acessível assuntos necessários como direitos das mulheres, a luta das mulheres negras, a violência contra a mulher e o que fazer nessas situações, dentre outros temas relacionados à mulher.

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   O silêncio também é uma política: reflexões no Julho das pretas

Julho é um mês de memória, resistência e compromisso. No dia 25 celebramos o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e, no Brasil, o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Mais do que uma data comemorativa, o Julho das Pretas representa décadas de organização política de mulheres que transformaram suas experiências de exclusão em luta por direitos, igualdade e democracia.

Celebrar essa data também significa fazer perguntas que nem sempre são confortáveis: o que avançamos? o que permanece igual? e, principalmente, o que deixamos de fazer?

Escrevo estas linhas não apenas como observadora das políticas públicas, mas como mulher que acompanha, participa e acredita na construção coletiva da igualdade racial e de gênero. Esta reflexão nasce menos da indignação e mais da responsabilidade de não permitir que o silêncio substitua os compromissos assumidos com tantas mulheres que continuam fazendo da resistência um exercício cotidiano.

Nos últimos anos, Itapira viveu um momento de esperança. A discussão sobre a construção de uma cidade antirracista ganhou espaço, comunidades estruturantes foram organizadas, lideranças da sociedade civil passaram a contribuir com propostas e acreditou-se que a promoção da igualdade racial deixaria de depender exclusivamente da militância para tornar-se uma política pública permanente.

A expectativa era legítima, entretanto, em menos de um ano e meio, esse movimento perdeu força. O entusiasmo inicial foi substituído pelo silêncio institucional. Muitas das iniciativas anunciadas não encontraram respaldo suficiente para se consolidarem. Sem instrumentos legais consistentes, orçamento próprio e continuidade administrativa, projetos importantes deixaram de avançar na velocidade e na profundidade que a realidade exige.

Essa situação revela um desafio que ultrapassa governos e mandatos, pois políticas de igualdade racial e de gênero não podem existir apenas enquanto há vontade política circunstancial, elas precisam estar protegidas por leis, planejamento, orçamento e mecanismos institucionais capazes de garantir sua continuidade.

Há exemplos concretos dessa realidade em nosso município. O primeiro é o Movimento de Mulheres Pretas da cidade, fruto da mobilização de mulheres que vêm construindo espaços de acolhimento, formação, fortalecimento de lideranças e defesa de direitos. Apesar de sua relevância social e política, o movimento ainda não integra, de forma estruturada, a agenda permanente das políticas públicas municipais. Sua atuação também não encontrou respaldo nas leis orçamentárias do município que possibilitasse sua consolidação. A ausência de uma sede própria e de mecanismos institucionais de apoio, limita seu potencial de ampliar ações, fortalecer redes e aprofundar sua contribuição social junto à comunidade.

Outro exemplo é a política municipal de promoção da igualdade racial. Embora exista como área da administração pública, sua atuação ainda enfrenta dificuldades para se consolidar como uma política de proximidade com a população, especialmente com as mulheres negras. A limitação de investimentos, estrutura e autonomia administrativa dificulta o desenvolvimento de ações contínuas, o acompanhamento das demandas dos territórios e a construção de políticas públicas permanentes que ultrapassem iniciativas pontuais.

Esses exemplos revelam uma realidade que merece reflexão. Construir uma cidade comprometida com a igualdade racial não depende apenas da criação de estruturas administrativas ou da realização de eventos em datas simbólicas. Exige investimento, continuidade, participação social e compromisso político permanente. Enquanto isso, a realidade das mulheres continua exigindo respostas urgentes.

Em todo o país, mulheres seguem sendo vítimas de violência física, psicológica, sexual, patrimonial, moral e política. O feminicídio continua interrompendo vidas e destruindo famílias. As mulheres negras, em especial, permanecem entre as maiores vítimas das desigualdades sociais, sendo as que  enfrentam maiores índices de violência, de insegurança alimentar, de mortalidade materna, menores rendimentos e menor acesso aos espaços de decisão. Esses números revelam que o racismo e o sexismo continuam estruturando desigualdades que atravessam gerações.

Existe também uma violência menos visível, mas igualmente profunda, ela se chama silenciamento político. Isso acontece quando lideranças deixam de ser ouvidas, quando conselhos e espaços de participação perdem força, quando iniciativas comunitárias deixam de receber apoio e  organizações da sociedade civil precisam sobreviver apenas pelo esforço voluntário de suas integrantes, produz-se um processo de invisibilização que também compromete a democracia.

Apesar disso, as mulheres continuam. Continuam organizando redes de apoio, promovendo debates, formando novas lideranças, acolhendo outras mulheres e construindo caminhos para uma sociedade mais justa. Fazem isso, muitas vezes, sem estrutura, sem financiamento e sem o reconhecimento institucional que seu trabalho merece. São elas que mantêm viva uma agenda que não deveria depender exclusivamente da resistência de quem acredita nela.

É importante esclarecer que esta reflexão não desqualifica, em hipótese alguma, os movimentos, coletivos, lideranças ou os espaços institucionais aqui mencionados, ao contrário, reconhece e valoriza o trabalho realizado por mulheres que, muitas vezes de forma voluntária e com recursos limitados, sustentam uma agenda essencial para a construção de uma sociedade mais justa.

O que se questiona é a insuficiência do apoio institucional oferecido pelo poder público. Nenhuma política de promoção da igualdade racial e de gênero se consolida apenas pela dedicação de quem milita. Ela exige investimento contínuo, segurança jurídica, orçamento, autonomia administrativa e condições concretas para que essas iniciativas possam ampliar seu alcance e produzir transformações duradouras. Fortalecer esses espaços não é um favor, é um dever do Estado e um compromisso com a democracia.

O Julho das Pretas nos lembra que nenhuma conquista é definitiva. Os direitos precisam ser cultivados, financiados e protegidos. Caso contrário, aquilo que se anuncia como novo acaba reproduzindo o mais do mesmo, mulheres negras lembradas nas homenagens, mas esquecidas no orçamento, reconhecidas nos discursos, mas ausentes das decisões.

Que a memória vença o esquecimento, que a participação substitua o silêncio, que o compromisso finalmente se traduza em políticas públicas permanentes. Porque o combate ao racismo não se mede pelas intenções anunciadas nem pelos discursos proferidos em datas simbólicas, mas mede-se pela capacidade de transformar vidas, fortalecer organizações, garantir direitos e criar oportunidades para que mulheres negras ocupem, com dignidade e protagonismo, os espaços que sempre lhes pertenceram.

O Julho das Pretas é um chamado à ação. Que ele nos lembre, todos os dias do ano, que uma democracia só se fortalece quando nenhuma mulher é silenciada e quando a igualdade deixa de ser promessa para tornar-se prática cotidiana.

 

Por: Hellen Santos

hellenccsed@gmail.com