Tudo pelo bem das mulheres: Agosto Lilás!, por Hellen Santos
Traço Feminino
Um espaço acolhedor que trará de forma acessível assuntos necessários como direitos das mulheres, a luta das mulheres negras, a violência contra a mulher e o que fazer nessas situações, dentre outros temas relacionados à mulher.
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Tudo pelo bem das mulheres: Agosto Lilás !
Dizem que existe um lugar onde as paredes respiram. Elas ouvem, elas sabem, mas nunca contam. Neste lugar, o barulho mais perigoso não é o estrondo, é o toc… toc… toc…
O som de passos medidos, o estalo da chave, o copo pousado com força sobre a mesa, o silêncio que chega antes de alguém. Curioso… ninguém foge do trovão, todos aprendem a fugir do silêncio.
Há habitantes que nascem com mapas invisíveis costurados na pele. Aprendem cedo quais ruas podem atravessar, que horas pertencem aos outros, qual roupa faz o vento soprar diferente, qual sorriso abre portas e qual fecha janelas. Chamam isso de prudência, que palavra elegante, para quem vive desviando-se de armadilhas.
Nesse país, as portas têm humor. Algumas trancam por dentro e outras por fora. Nunca se sabe! As janelas também observam, não para proteger, apenas para confirmar que a culpa sempre encontra um endereço.
Há quem diga que ali existem flores, existem! Só não podem crescer muito, pois quando ultrapassam certa altura, alguém aparece para podá-las, pelo bem do jardim, explicam, sempre pelo bem.
Tudo naquele lugar acontece pelo bem…O grito?, pelo bem. A ordem?, pelo bem. O medo?, pelo bem. E quem ousa perguntar recebe de presente um espelho. “Veja o que você fez!” espelhos naquele país têm essa estranha habilidade de refletir apenas um lado da história.
Os relógios também conspiram, marcam horários diferentes para pessoas diferentes. Há quem atravesse a madrugada como quem atravessa uma praça. Há quem atravesse a praça como quem enfrenta a madrugada. É só uma questão de ponteiros ou de sobrevivência.As crianças aprendem cedo o idioma dos ruídos. Psiu, Shhh, Não, Volta, Corre, Sorri.. são verbos, são avisos, são heranças.
Há também um curioso fenômeno atmosférico, algumas pessoas carregam o sol na própria pele, não um sol que ilumina, um sol antigo, daqueles que insistem em nascer mesmo depois de tantas tempestades. Elas conhecem ventos que outros jamais sentirão.
Quando chove, a água parece pesar mais sobre seus ombros. Mistérios da meteorologia, dizem. Neste lugar existe um esporte nacional: duvidar. Duvida-se da chuva, do machucado, da memória, da lágrima, da coragem, principalmente da coragem. Os campeões sempre recebem medalhas invisíveis. Chamam isso de opinião.
Enquanto isso, o país continua funcionando perfeitamente ou quase. Porque, de vez em quando…Crac! Alguma esperança..Noc! Alguém engole mais uma palavra..Tum! Outra porta se fecha e a vida segue. Como se sobreviver fosse sinônimo de viver.
Talvez você tenha imaginado que eu escrevia sobre um reino distante, um mundo inventado onde o medo dita as regras, não escrevia. Escrevia sobre mulheres. Sobre aquelas que aprenderam a decifrar ruídos antes mesmo de aprender a ler. Sobre aquelas que carregam o sol na pele e, por isso, enfrentam tempestades ainda mais severas. Escrevia sobre uma violência que nem sempre faz barulho, mas sempre deixa ecos.
O Agosto é lilás, porque o silêncio nunca deveria ser a última palavra. Dedico a todas as mulheres, em especial às mulheres itapirenses que precisam de apoio ou que estão sentindo na pele, caladas, qualquer tipo de violência!

Por: Hellen Santos
Nota da autora: No texto, os “ruídos”, as “paredes”, as “portas”, os “espelhos” e o “silêncio” representam as diversas formas de violência que muitas mulheres enfrentam diariamente. Algumas são visíveis, como a agressão física; outras são silenciosas, como o medo constante, o controle, a humilhação, a violência psicológica, moral, patrimonial e sexual. A narrativa foi construída como uma distopia para mostrar que, para muitas mulheres, viver com medo já faz parte da rotina. A referência às pessoas que “carregam o sol na pele” simboliza as mulheres negras, que frequentemente enfrentam, além da violência de gênero, o peso do racismo, tornando suas vulnerabilidades ainda maiores. O desfecho revela que esse “país” não é fictício: ele existe sempre que uma mulher precisa aprender a sobreviver em vez de simplesmente viver. A menção ao Agosto Lilás reforça o compromisso com a conscientização e o combate à violência contra as mulheres.






