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Gazeta Itapirense

O problema não está na regra. Está na formação; por Nelson Theodoro

Cada dia mais me convenço de que muitos dos nossos problemas começam na educação — e o futebol é um bom exemplo disso.

Agora surge a discussão sobre diminuir o número de jogadores estrangeiros nos times brasileiros, sob o argumento de abrir mais espaço para os garotos formados nas categorias de base. Mas será que o problema está realmente na quantidade de estrangeiros? Ou precisamos olhar com mais atenção para a forma como estamos preparando nossos próprios jogadores?

Houve um tempo em que praticamente todo grande clube europeu queria ter pelo menos um brasileiro no elenco. Continuamos revelando talentos, mas hoje acontece algo diferente: quando um garoto brasileiro desponta aos 17 ou 18 anos, rapidamente desperta o interesse de clubes estrangeiros e muitas vezes vai embora ainda muito jovem.

E lá ele continua sua formação.

Não aprende apenas novas técnicas dentro de campo. Aprende uma língua, conhece outra cultura, convive com novas regras, recebe preparação física, tática e comportamental e passa a entender o futebol dentro de outra filosofia.

Depois de alguns anos, muitos desses jovens estão preparados para assumir posições importantes em grandes equipes.

Isso deveria nos fazer pensar sobre o que estamos fazendo aqui.

A formação para a performance precisa começar cedo. Aos 12 anos, por exemplo, não deveria existir apenas a preocupação em ganhar o próximo jogo ou campeonato. É preciso ensinar cada criança a entender como pode evoluir individualmente e, principalmente, como pode contribuir para o grupo.

Porque, se existe uma grande lição que o futebol oferece, é esta: uma equipe não é simplesmente a soma de bons jogadores.

Recentemente, vi fotos da antiga Seleção Brasileira da época de Pelé, em um hotel de Serra Negra. O que mais me chamou a atenção não foram apenas as imagens dos jogos. Foram os momentos de descontração, os treinamentos sem bola, a convivência e a maneira como um apoiava o outro. Havia ali uma sensação de grupo, quase de família.

Talvez seja justamente essa uma das reflexões que precisamos recuperar.

Formar um jogador não significa apenas ensiná-lo a dominar a bola, correr, marcar ou fazer gols. Significa ensinar disciplina, responsabilidade, respeito, convivência, leitura de jogo e compromisso com o coletivo.

Por isso, mudar uma regra pode até alterar quem entra em campo, mas não resolve sozinho aquilo que acontece muito antes de o jogador chegar ao time profissional.

Petkovic levantou justamente esse ponto: reduzir o número de estrangeiros não resolve, por si só, o problema da formação dos jogadores brasileiros. É preciso discutir a maneira como estamos formando nossos jovens.
É preciso mudar a formação.

E quanto mais observo o futebol, mais percebo que essa discussão vai muito além das quatro linhas. É um problema que encontramos em diferentes níveis da nossa sociedade: queremos melhorar o resultado, quando muitas vezes precisamos começar melhorando a educação e a formação de quem vai produzi-lo

Nelson Theodoro Junior, Presidente da Associação Comercial e Industrial de Mogi Mirim, Diretor da Fecomercio-SP, Diretor do Sincomércio de Mogi Mirim e Presidente do Conselho do Patrimônio de Mogi Mirim.