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Gazeta Itapirense

Com a Prefeitura ‘quebrada’, Festa do Peão não ocorrerá após quase 50 anos de história

Por décadas, a Festa do Peão de Itapira fez parte do calendário anual da cidade, deixando de ocorrer apenas na pandemia de Covid-19. Foi ponto de encontro de famílias, trabalhadores rurais, apaixonados por cavalos, crianças, jovens e antigos moradores que cresceram acompanhando as montarias, os desfiles, a escolha da Rainha e os grandes shows no Recinto Agropecuário Carmen Ruette de Oliveira.

Agora, uma das tradições mais conhecidas de Itapira corre o risco de desaparecer de vez do calendário municipal justamente quando se aproxima de meio século de história.

O motivo é a falta de dinheiro que assola os cofres municipais da cidade desde 2025 quando o prefeito Toninho Bellini assumiu seu 4º mandato. Com gastanças desnecessárias e sem dinheiro para fazer o básico em Itapira, logicamente não sobrou dinheiro para ajudar na tradicional Festa do Peão.

A Prefeitura de Itapira mantém silêncio sobre o assunto. Questionado pela reportagem da Gazeta sobre os planos para a realização da festa, o Departamento de Comunicação não apresentou, até o momento, uma posição oficial sobre o futuro do evento.

O silêncio contrasta com o movimento realizado nas últimas semanas nos bastidores da administração municipal, que envolveu entidades assistenciais e uma tentativa de encontrar um modelo para viabilizar a realização da festa.

Segundo informações apuradas pela Gazeta, a Prefeitura chegou a trabalhar com a possibilidade de envolver entidades assistenciais na organização do evento, enquanto o Município assumiria parte dos custos, incluindo a contratação de atrações.

A articulação ganhou repercussão depois que o vereador Tiago Fontolan questionou publicamente a proposta e levantou dúvidas sobre a transferência de responsabilidades às entidades e sobre a participação de recursos públicos.

Reportagem publicada pela Gazeta em setembro revelou mensagens atribuídas a integrantes da administração municipal tratando da possibilidade de as entidades procurarem uma empresa privada para assumir a realização da festa.

A Prefeitura pretendia transferir às entidades diversas responsabilidades relacionadas à organização, enquanto o Município disponibilizaria o recinto e contrataria duas atrações. A ‘jogada’ do prefeito não caiu bem e após a denúncia de Fontolan as entidades ‘pularam fora’.

Foi justamente esse cenário que obrigou o prefeito Toninho Bellini a recuar e sair da organização do evento já que não teria mais quem usar como ‘laranja’ para dar a desculpa de que seria um evento filantrópico e usar dinheiro público.

O problema é que, qualquer que seja o modelo escolhido, a discussão revela uma questão maior: o que aconteceu com a capacidade financeira da Prefeitura para apoiar uma tradição que durante anos recebeu participação do poder público?

Nos últimos anos, a Prefeitura participou diretamente do Itapira Rodeio Show. Em 2023, por exemplo, o Município informou oficialmente que o evento contou com apoio da Prefeitura, que cedeu o Recinto Agropecuário e custeou o show de abertura. Levantamento publicado pela Gazeta apontou que os investimentos municipais no rodeio chegaram a quase R$ 2 milhões em 2024 e 2025. A discussão, portanto, não surgiu porque a Prefeitura nunca teve participação no evento, mas porque, em 2026, a administração passou a alegar a condição de evento particular para justificar uma postura diferente.

Em 2025 os gastos da Prefeitura com atrações do rodeio chegaram perto de R$ 900 mil.

Agora, segundo as informações levantadas pela Gazeta, chegou a ser discutida a possibilidade de aproximadamente R$ 500 mil em recursos municipais para shows e parte da estrutura, além da utilização do recinto e de serviços de várias secretarias.

Evento criado na década de 70 reunia milhares de pessoas: acabou de vez??? (Divulgação)

Uma cidade sem dinheiro para nada

Itapira enfrenta uma série de problemas de manutenção e prestação de serviços públicos que vêm sendo denunciados por moradores e acompanhados pela imprensa local.

Há reclamações relacionadas a serviços básicos, manutenção de equipamentos públicos, infraestrutura urbana e problemas no abastecimento de água.

O SAAE atravessa uma situação especialmente delicada, com vazamentos que permanecem por longos períodos antes de serem solucionados e obras de infraestrutura que aguardam investimentos.

A pergunta que fica para o cidadão é simples: se havia dinheiro público para participar de uma festa privada em anos anteriores, por que agora a administração não consegue sequer encontrar uma forma transparente e financeiramente responsável de preservar uma tradição tão antiga?

Se não há recursos para apoiar o evento, que a Prefeitura diga claramente que não haverá dinheiro público e explique as razões.

Quase meio século

A Festa do Peão de Itapira nasceu logo no primeiro ano do jovem prefeito Totonho Munhoz, em 1977. Atendendo ao anseio da população e de pessoas ligadas ao mundo rural, Munhoz usou o estádio Chico Vieira como palco da primeira Festa do Peão de Itapira.

Ele teve na época apoio fundamental de muitas pessoas, entre elas a empresária e benemérita Carmen Ruette de Oliveira, o banqueiro e fazendeiro Charlô Quartim Barbosa, entre outros.

Depois do pontapé inicial, o evento só cresceu e o Velho Chico Vieira ficou pequeno.

Juntamente com Totonho Munhoz, um grupo formado por Vladimir Siqueira, Pedro Tonoli, José Artur Miranda e Nando Venturini projetou a construção de um recinto agropecuário.

Foi aí que mais uma vez dona Carmen Ruette entrou em ação e atendeu a um pedido de Totonho. Ela doou a área para a construção do recinto itapriense que, obviamente, levou o seu nome.

O Recinto Agropecuário Carmen Ruette de Oliviera foi construído nas gestões dos prefeito David Moro Filho e Bebeto Munhoz, sendo inaugurado em 1988.

O então prefeito Totonho Munhoz com a ‘Corte’ da Festa do Peão (Divulgação)

A tradição atravessou diferentes administrações, mudanças de formato, diferentes empresas organizadoras e várias gerações e se tornou em uma das maiores festas do gênero de todo o Brasil.

Depois de tantos anos, a Festa do Peão pode não terminar com uma última noite de rodeio, com uma arena lotada ou com os fogos anunciando o encerramento.

Pode terminar de maneira muito menos grandiosa.

Com o recinto vazio.

Com as luzes apagadas.

E com uma cidade olhando para trás, tentando lembrar quando foi que uma das festas mais tradicionais de Itapira deixou de fazer parte da sua história.