Azera do prefeito, vendido como “sucata”, ainda aparece em gastos com pedágios
Um caso que pode se transformar em mais um episódio de crime envolvendo o uso de recursos públicos em Itapira veio à tona após levantamento realizado pela Gazeta junto ao Portal da Transparência da Prefeitura.
Documentos oficiais mostram pagamentos realizados ao sistema ‘Sem Parar’ vinculados ao veículo Hyundai Azera, que durante anos serviu ao gabinete do prefeito e que, segundo a própria Prefeitura, foi considerado inservível e colocado à venda em leilão público realizado em 2025.
A pergunta que não quer calar é simples: como um veículo sucateado, vendido em leilão e fora da frota municipal há pelo menos três anos continua gerando despesas pagas com dinheiro público?
O carro do gabinete
O Hyundai Azera GLS 3.3 foi durante muitos anos um dos veículos oficiais utilizados pelo gabinete do prefeito. Entretanto, após apresentar problemas mecânicos graves, incluindo motor fundido, o automóvel foi retirado de circulação.
Na época do leilão promovido pela Prefeitura, reportagens mostraram que o veículo permanecia abandonado no Almoxarifado Municipal, parado há anos e cercado por mato, sem qualquer condição de uso.
O próprio edital de alienação classificava o veículo como inservível para a administração pública.

Leilão ocorreu em 2025
A Prefeitura abriu em juho de 2025 o processo para venda de dezenas de veículos considerados sem condições de utilização. O certame depois foi prorrogado para outubro.
O Hyundai Azera integrava o lote de bens disponibilizados para alienação e acabou sendo vendido durante o leilão realizado em outubro de 2025.
Com a venda, o automóvel deixou oficialmente de integrar a frota municipal e não poderia continuar dando gasto algum. Ou pelo menos era o que se imaginava.
Pagamentos continuam aparecendo
A surpresa surgiu quando a reportagem analisou empenhos e pagamentos disponíveis no Portal da Transparência. O empenho saiu do gabinete do prefeito Toninho Bellini e, segundo apurado, outro departamento não poderia preencher o documento a não ser pessoas ligadas ao prefeito.
Nos documentos consta despesa referente ao sistema Sem Parar envolvendo justamente o Hyundai Azera de placas EHE-0605 e também uma Renault Oroch. Em 2025 aparecem pagamentos relacionados ao veículo.
Nos meses de abril, maio, junho, julho e agosto aparecem pagamentos que totalizaram R$ 6.115,00.

O problema é que os registros continuam aparecendo em 2026.
Há lançamento de despesas e pagamentos realizados neste ano vinculados ao mesmo Azera que, já não pertence mais ao patrimônio público municipal.
A fatura do ‘Sem Parar’ dos meses de janeiro e maio soma mais R$ 3,420,58.

Mistério sobre rodas
A situação gera uma série de questionamentos.
Se o carro estava parado há anos com motor fundido, como poderia estar utilizando pedágios?
Se foi efetivamente vendido no leilão de outubro de 2025, por qual motivo continua aparecendo em empenhos e pagamentos realizados pela Prefeitura em 2026?
O sistema ‘Sem Parar’ permaneceu ativo após a venda e com alguém fazendo uso e a conta sobrando para a Prefeitura?
Ou existe alguma explicação ainda mais preocupante?
Dinheiro público exige explicação
Independentemente da justificativa que venha a ser apresentada, o caso expõe mais uma vez falhas que merecem esclarecimentos imediatos.
Em qualquer administração minimamente organizada, veículos vendidos deixam de gerar despesas para os cofres públicos.
Ainda mais quando se trata de um automóvel oficialmente classificado como sucata e retirado da frota há muito tempo.
A continuidade de lançamentos relacionados ao carro causa estranheza e abre espaço para questionamentos sobre controle patrimonial, fiscalização de contratos e gestão dos recursos públicos.
Outro lado
A reportagem da Gazeta encaminhou questionamentos ao Departamento de Comunicação da Prefeitura de Itapira na quinta-feira, 25, solicitando esclarecimentos sobre os pagamentos identificados no Portal da Transparência.
Entre as perguntas encaminhadas estavam se o veículo realmente foi vendido, por que o Sem Parar permaneceu vinculado ao automóvel e qual a justificativa para a existência de pagamentos.
A resposta foi a seguinte: “Até o momento, apuramos que o texto desse histórico, que é o mesmo utilizado nos empenhos, não foi atualizado, nem para inserção de novos veículos. Seguimos apurando mais detalhes sobre como funciona esses trâmites burocráticos para saber quem deveria ter alterado essa descrição e, assim, saber quais providências serão tomadas”.
Até o fechamento desta matéria, nenhuma resposta havia sido enviada.Enquanto isso, permanece a dúvida que qualquer contribuinte faria ao olhar os documentos oficiais: afinal, quem está passando pelos pedágios pagos com dinheiro público em nome de um carro que já foi vendido como sucata?





