Gazeta Itapirense

Venda do prédio do lendário Bar do Coli gera incertezas quanto ao futuro

Uma parte viva da história de Itapira pode estar perto de um ponto final. O tradicional Bar do Coli, considerado por muitos o mais antigo em funcionamento na cidade e um dos últimos redutos do verdadeiro “bar raiz”, vive um momento de incerteza diante da possibilidade de venda do imóvel onde está instalado.

Localizado no alto do bairro Santa Cruz, o bar atravessa gerações e se confunde com a própria memória afetiva de moradores. Com quase um século de existência, o espaço já teve diferentes proprietários, entre eles a marcante família de Cido Coli, que ajudou a consolidar o local como ponto de encontro popular. Ao longo das décadas, o estabelecimento resistiu ao tempo, às mudanças de comportamento e à transformação da cidade.

Atualmente sob responsabilidade de Marcelo Zanqueta Iamarino e sua mãe há 34 anos, o bar segue funcionando diariamente, mantendo viva uma tradição cada vez mais rara. “A essência do Bar do Coli é o lugar. Isso aqui não existe mais em lugar nenhum, aqui tem abrir e não tem pra fechar”, resume o proprietário, ao falar sobre o valor simbólico do espaço.

Marcelinho teme pelo futuro do querido bar de Itapira (Foto: Gilmar Carvalho/Gazeta)

A reportagem percorreu o local e encontrou muito mais do que um simples bar. A antiga cancha de bocha ainda guarda lembranças de disputas acirradas, inclusive da Copa Itapira de Bocha, na qual o estabelecimento acumulou troféus. As bolas estão lá e vez ou outra alguns duelos ocorrem.

Mas esta mesma cancha era ponto de encontro diário de muita gente há décadas atrás, alguns para as disputas outros para tomar uma gelada no fim de tarde e fumar um ‘quebra peito’ das marcas Belmont, Elmo, Minister, entre tantas outras.

A famosa cancha de bocha: local de encontro e diversão de várias gerações (Foto: Gilmar Carvalho/Gazeta)

Nos salões, que hoje já não recebem almoços como antigamente, ainda ecoam histórias de shows, encontros e celebrações que marcaram época. Casamentos, batizados e aniversários eram frequentes por ali.

O Bar do Coli também de destaca há décadas como um ponto de convivência social. Mesas de truco, partidas de baralho, conversas de balcão e a famosa cerveja gelada ajudaram a construir um ambiente único, onde diferentes gerações se encontravam. Hoje, mesmo com a redução do movimento em comparação ao passado, o espírito resiste — principalmente entre os clientes mais fiéis.

Os troféus guardam histórias de disputas acirradas em torneios pela cidade (Foto: Gilmar Carvalho/Gazeta)

Na estufa salgados pra acompanhar uma birita e na chapa um lanche bem servido ainda resistem.

Mas o futuro preocupa. A família dona do ponto do Bar do Coli também é proprietária de uma residência, a Casa de Baterias Palandi e uma loja de conserto de celular e estuda a venda da área total.

Embora conversas já tenham ocorrido anteriormente, desta vez a possibilidade parece mais concreta, o que acende um alerta entre frequentadores e moradores da região.

“É triste, porque tem toda uma história aqui”, afirma Marcelinho. Ainda assim, ele garante que, por enquanto, o funcionamento segue normal. “Vamos tocando. A gente precisa trabalhar.”

Fachada do Bar do Coli, Marcelinho e alguns clientes fiéis (Foto: Gilmar Carvalho/Gazeta)

O possível fim do Bar do Coli vai além do encerramento de uma atividade comercial. Representa a perda de um patrimônio cultural informal, daqueles que não estão tombados, mas vivem na memória coletiva da cidade.

Em tempos de mudanças rápidas e padronização dos espaços urbanos, lugares como o Bar do Coli se tornam cada vez mais raros — e, justamente por isso, ainda mais valiosos.

Seu destino, agora, é acompanhado com apreensão por quem reconhece ali muito mais do que um bar: um pedaço da história de Itapira.