Toninho Bellini terá que explicar o “rombo” de R$ 1,19 milhão na aquisição de sistemas
Uma diferença de valores superior a 12 vezes coloca sob questionamento os gastos da Prefeitura de Itapira com sistemas de gestão da rede municipal de ensino.
Documentos as quais a reportagem da Gazeta teve acesso e informações divulgadas pela própria administração municipal mostram que, em 2024, a Prefeitura contratou a empresa Mais Educar para fornecer um software de gestão escolar e administrativa pelo valor de R$ 1.296.000,00 — o equivalente a R$ 108 mil por mês.
Dois anos depois, em 2026, a Secretaria Municipal de Educação anunciou a implantação de outro sistema, o SIEWEB, fornecido pela Fiorilli Software Ltda., por meio de um termo aditivo a um contrato já existente. O custo informado pela Prefeitura é de R$ 8.500 mensais, ou R$ 102 mil por ano.
Isso mesmo, a empresa Fiorelli Software já tinha contrato com a Prefeitura e poderia facilmente implantar o sistema 12 vezes mais barato.

Mas não, Toninho Bellini preferiu, misteriosamente, fechar um contrato milionário para executar o mesmo serviço.
A diferença chama atenção não apenas pelo valor, mas principalmente pela finalidade dos serviços descritos pela própria Prefeitura. Em outubro de 2024, a administração municipal anunciou a aquisição de um “novo Software de Gestão Escolar e Gestão Administrativa”, afirmando que a ferramenta seria utilizada para integrar processos e melhorar o gerenciamento da rede municipal.
Entre as funcionalidades divulgadas estavam gestão de unidades escolares, alunos e professores, controle de notas e frequência, secretaria escolar, relatórios, portal educacional, biblioteca e gestão do transporte escolar. A Prefeitura também informou que o sistema teria suporte, treinamento de servidores e integração com a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.
Na ocasião, a administração informou que a implantação estava em processo de adequação e que o sistema entraria efetivamente em operação a partir do ano letivo de 2025.
O valor de R$ 1,296 milhão, entretanto, não apareceu na matéria publicada pela própria Prefeitura para anunciar a contratação. A informação financeira consta do contrato, mas não foi apresentada ao público no texto institucional que divulgou a aquisição do sistema.
Agora, em julho de 2026, a própria Prefeitura voltou a anunciar a implantação de um sistema para cumprir as mesmas funções de gestão escolar. Segundo a administração, o SIEWEB passará a ser utilizado em todas as unidades escolares e na Secretaria de Educação.
A descrição divulgada em 2026 também inclui recursos como controle de notas, faltas dos alunos, atribuição de aulas, conteúdo ministrado, planejamento, ocorrências, informações de secretaria e gestão, além de integração com a Secretaria Escolar Digital (SED) do Governo do Estado de São Paulo.
Ou seja, embora sejam sistemas de empresas, existe uma sobreposição evidente entre as finalidades e funcionalidades apresentadas pela própria Prefeitura nos dois momentos.
É justamente aí que está a principal pergunta que a administração municipal precisa responder.
Por que o município desembolsou R$ 1,296 milhão por um serviço que agora é apresentado por R$ 102 mil ao ano?
A conta é difícil de ignorar.
O contrato de 2024 representava um custo de R$ 108 mil por mês. O sistema anunciado em 2026 custa R$ 8.500 mensais. Na comparação mensal, a diferença é de R$ 99.500.
Considerando um ano, o contrato de 2024 correspondia a R$ 1,296 milhão, enquanto o novo sistema anunciado para 2026 representa R$ 102 mil. A contratação anterior, portanto, equivale a aproximadamente 12,7 vezes o valor anual do novo serviço.
Em termos nominais, a diferença chega a R$ 1,194 milhão por ano.
É uma diferença grande demais para ser tratada como mero detalhe administrativo.
Se havia uma solução de gestão escolar disponível e com contrato em andamento com a Prefeitura por R$ 8.500 mensais, a população tem o direito de saber por que a administração municipal precisou contratar, anteriormente, um serviço que representava R$ 108 mil mensais.
Também é necessário esclarecer se o sistema adquirido em 2024 foi efetivamente utilizado durante o período previsto, por quanto tempo funcionou, quais funcionalidades foram implantadas, quanto foi pago efetivamente à empresa, quais serviços foram prestados e por qual razão deixou de atender às necessidades da Secretaria de Educação.
A transparência também merece atenção. Quando anunciou o sistema de 2024, a Prefeitura apresentou uma extensa lista de benefícios e funcionalidades, mas não informou o valor de R$ 1,296 milhão na matéria publicada em seu próprio site. Já em 2026, ao anunciar o SIEWEB, a administração fez questão de informar que o custo mensal seria de R$ 8.500.
Por que a diferença de transparência?
A população de Itapira precisa de uma explicação objetiva para essa mudança de cenário. E o Ministério Público e a Polícia Civil também.
Procurado para esclarecer a diferença entre os contratos e explicar por que uma solução semelhante não poderia ter sido contratada por um valor muito menor anteriormente, o Departamento de Comunicação da Prefeitura encaminhou apenas a informação institucional sobre o novo sistema.
A resposta, porém, não esclareceu a principal questão levantada: qual foi a justificativa técnica e administrativa para o gasto de R$ 1,296 milhão em 2024 diante da existência, agora, de uma solução anunciada por R$ 102 mil ao ano?
Não se trata apenas de comparar duas empresas. Trata-se de comparar dinheiro público.
Uma diferença de aproximadamente R$ 1,2 milhão por ano exige justificativas proporcionais ao tamanho da despesa. E, até que essas explicações sejam apresentadas, permanece uma dúvida incômoda sobre o planejamento, a economicidade e a gestão dos recursos destinados à Educação em Itapira.
A administração do prefeito Toninho Bellini precisa explicar por que um serviço que, segundo as próprias informações divulgadas pela Prefeitura, possui finalidade e funcionalidades semelhantes pode custar mais de dez vezes menos quando contratado em outro momento.
O que aconteceu entre 2024 e 2026?
Por que o município não encontrou antes uma alternativa com custo compatível com o valor anunciado agora?
Essas são perguntas que não podem ser respondidas apenas com o anúncio de um “novo programa”. É preciso explicar o destino do dinheiro já gasto, a efetividade da contratação anterior e a razão de uma diferença de preço que ultrapassa R$ 1 milhão.
Enquanto a Prefeitura não apresentar essas respostas, o caso permanece como mais um episódio que coloca em xeque a capacidade de planejamento e a responsabilidade da administração municipal na utilização dos recursos públicos.
Continua também como mais um provável escândalo envolvendo o prefeito Toninho Bellini.






