Quase metade da água tratada é perdida; SAAE não tem plano de investimento
A situação do Serviço Autônomo de Água e Esgotos (SAAE) de Itapira expõe um problema que se arrasta há anos e que, diante da falta de investimentos estruturais, tende a se agravar: praticamente metade da água tratada pelo município não chega efetivamente aos consumidores.
Os números constam de documento oficial encaminhado pelo SAAE à Câmara Municipal de Itapira em resposta ao Requerimento nº 72/2025, de autoria do vereador Tiago Fontolan.
Embora os dados apresentados pela autarquia sejam referentes principalmente aos anos de 2023 e 2024, o documento oferece um retrato preocupante da estrutura de abastecimento de Itapira e revela que a autarquia enfrenta problemas que não são recentes e que exigem investimentos de grande porte.
Vale destacar que, como em 2024 teve eleições municipais, Toninho Bellini deu uma bela ‘maquiada’ na situação mas, de 2025 pra cá o caos dos vazamentos tomou conta da cidade inteira e passou a fazer parte da vida do itapirense.
De acordo com o SAAE, o Índice de Perdas na Distribuição (IN049) foi de 49,28% em 2023. Nossa reportagem pediu, junto ao Departamento de Comunicação da Prefeitura, os índices de 2024 e 2025 mas, até a publicação desta matéria, não recebemos os números.
Em 2023 praticamente metade da água colocada no sistema de distribuição não foi contabilizada como efetivamente entregue aos consumidores. E o problema fica ainda mais preocupante quando os números são transformados em volume.
O próprio SAAE informa que tratou, em média, 784.915,20 metros cúbicos de água por mês, totalizando 9.418.982 metros cúbicos ao longo de um ano.
Considerando o índice de perdas de 49,28% registrado em 2023, isso representa aproximadamente 4,64 milhões de metros cúbicos de água que deixaram de chegar aos consumidores.
Em outras palavras, de cada 100 litros de água tratados pelo sistema, aproximadamente 49 litros foram perdidos antes de serem efetivamente disponibilizados para consumo.
O documento também informa que, conforme os dados de 2023, foram efetivamente disponibilizados aos consumidores 4.861.220 metros cúbicos de água durante o ano.
A conta revela uma dimensão gigantesca do desperdício e mostra que o problema não pode ser tratado apenas como pequenos vazamentos pontuais nas ruas.
Mais de R$ 9,5 milhões em água perdida
O próprio SAAE informa no documento que o custo médio da água tratada em Itapira é de R$ 2,05 por metro cúbico.
A partir desse valor, é possível dimensionar financeiramente o tamanho do desperdício.
Considerando os aproximadamente 4,64 milhões de metros cúbicos correspondentes ao índice de perdas de 49,28% registrado em 2023, o custo equivalente da água perdida chega a aproximadamente R$ 9,51 milhões em um único ano.
É importante destacar que esse cálculo considera o custo médio informado pelo próprio SAAE de R$ 2,05 por metro cúbico. Não significa que esse seja o prejuízo contábil exato da autarquia, mas representa o valor correspondente ao volume de água que foi tratado e posteriormente perdido dentro do sistema.
Se fosse considerado o índice de 52% mencionado no próprio requerimento, o volume desperdiçado chegaria a aproximadamente 4,90 milhões de metros cúbicos, equivalentes a cerca de R$ 10 milhões pelo custo de tratamento informado pela autarquia.
O próprio SAAE, porém, apresenta outra informação igualmente preocupante. Questionado sobre quanto custa anualmente tratar a água que acaba sendo desperdiçada, respondeu que, considerando produtos químicos e energia elétrica, são aproximadamente R$ 3 milhões.
Ou seja, além de tratar milhões de metros cúbicos de água que não chegam ao consumidor, a autarquia também arca com os custos de energia elétrica e produtos químicos utilizados no processo.
É dinheiro público sendo empregado para produzir uma água que, em grande parte, desaparece no caminho até as torneiras dos moradores.
SAAE não possui mapeamento das áreas mais críticas
Outro dado revelador está na resposta sobre a existência de um mapeamento atualizado das regiões com maior incidência de vazamentos.
A resposta do SAAE também é preocupante: não existe atualmente um mapeamento.
Segundo a autarquia, está em projeto a criação de uma ferramenta para monitoramento e mapeamento.
Ou seja, apesar de registrar quase 50% de perdas na distribuição, o município ainda não possui um mapeamento consolidado das áreas mais críticas da rede.
O documento também informa que existem 22 setores de abastecimento que contam com Válvulas Redutoras de Pressão (VRP), utilizadas automaticamente para controlar e reduzir a pressão na rede e, consequentemente, diminuir o número de vazamentos.
Ainda assim, os índices demonstram que as medidas existentes estão longe de resolver o problema.
Apenas cinco equipes para atender toda a cidade
Outro ponto que chama a atenção no documento é a estrutura disponível para os reparos.
Questionado sobre quantas equipes estão disponíveis, o SAAE informou possuir cinco equipes, cada uma composta por dois encanadores.
São dez encanadores distribuídos em cinco equipes para atender toda a rede de abastecimento de Itapira.
A estrutura precisa, portanto, enfrentar uma demanda elevada e permanente, em uma rede cuja idade média é de 35 anos e que possui trechos instalados desde a década de 1950.
Não há orçamento específico para manutenção da rede
O requerimento também questionou qual é o orçamento anual destinado especificamente à manutenção preventiva e corretiva da rede de abastecimento.
A resposta do SAAE chama atenção: “Não existe uma dotação orçamentária específica.”
A ausência de uma dotação específica, somada ao elevado número de vazamentos, à idade de parte da rede e à inexistência de um plano de substituição das tubulações antigas, ajuda a explicar a dificuldade enfrentada pela autarquia para atacar o problema de maneira estrutural.
Seis anos sem grandes investimentos estruturais
Os dados precisam ser analisados também sob a perspectiva dos investimentos realizados na estrutura de abastecimento de Itapira.
A atual administração do prefeito o Toninho Bellini, assumiu novamente o comando do município em 2021.
Desde então, a população convive com uma estrutura de abastecimento que apresenta perdas próximas de 50%, redes com trechos que remontam à década de 1950, ausência de um plano de substituição das tubulações antigas e inexistência de um mapeamento atualizado das áreas mais críticas.
A crítica que se coloca é justamente sobre a falta de investimentos de grande monta na modernização do sistema.
A última grande fase de investimentos estruturais no SAAE ocorreu durante a administração do ex-prefeito Paganini, entre 2013 e 2020, período em que foram realizados investimentos e intervenções na estrutura da autarquia.
Nos seis anos seguintes, sob a administração de Toninho Bellini, o que se vê, segundo os números apresentados pelo próprio SAAE, é uma estrutura envelhecida, com elevado índice de perdas e sem um plano abrangente para substituição das redes antigas.
A situação atual coloca em discussão uma questão fundamental: quanto tempo ainda será possível administrar o sistema apenas com reparos pontuais?
Agora, cabe à Prefeitura de Itapira explicar à população por que, depois de seis anos de administração Toninho Bellini, uma das principais estruturas de prestação de serviço público da cidade chegou a esse nível de deterioração e, principalmente, qual será o investimento necessário para recuperar o sistema antes que as perdas se tornem ainda maiores.






