Gazeta Itapirense

Psicólogo explica por que o luto é um processo e não um momento

O luto é um dor que pede passagem sem pedir, mas custa ir embora. Estar em luto é construir pontes no vão da vida, numa ligação entre quem ficou naquele que não existe mais. É como uma cortina densa e ao mesmo tempo invisível, intangível, sentida e pesada.
Especialista do comportamento da mente humana, Contardo Caligaris, psicanalista e pós graduado em psicologia, um fera na sua área de atuação, comenta que o luto não se esquece.
Ele esclarece que, inexplicavelmente, para esquecer quem morreu é preciso lembrar.
“Cometer o suicídio também não é a melhor solução, porque quem morreu passa a morrer duplamente, pois ninguém mais se lembrará do finado”, argumenta. “O fato de pensar em quem morreu é que traz alívio, por pior que seja o momento; é uma lembrança da história vivida, uma herança no mundo dos vivos”, diz.
Apesar de ser um sentimento primariamente humano, o luto é estudado por várias áreas do conhecimento. Elisabeth Kubler Ross, psiquiatra suíça, é autora do livro On Death and Dying (Sobre a Morte e o Processo de Morrer).
No livro, a cientista lançou bases da tanatologia, a ciência que estuda a morte e os processos que todos nós passaremos até aceitá-la como algo inerente à vida.
Seriam cinco fases: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Cada fase não é vivenciada separadamente e nesta sequência cronológica. Podem se intercalarem e se interporem. Por vezes, alguma demora mais para ser ‘digerida’ até a aceitação do rumo das coisas.

A reportagem da Gazeta entrou em contato com Robson Gimenez, que é psicólogo do Hospital São Francisco de Mogi Guaçu, e enviou algumas perguntas sobre o espinhoso tema.

Confira a entrevista:

Como a psicologia explica o luto como um processo de adaptação à ausência?

Perder alguém importante, principalmente quem amamos, que faz parte da nossa vida, que esteve presente em tantos capítulos de nossa história, inevitavelmente causa dor e junto com ela, o desafio de adaptação da ausência. Aquela pessoa não está mais presente fisicamente, seu sorriso, suas falas, seu jeito, seu cheiro, suas chatices, suas graças e tudo aquilo que era próprio da pessoa. Embora a vida continue e exista tanto a se viver, estará faltando algo, faltando alguém, e não é qualquer alguém, é alguém importante e que amamos. Entre dúvidas e questionamentos, pode surgir a certeza de que a vida nunca mais será a mesma sem esse alguém tão importante.

Adaptar-se, reconfigurar, ressignificar, encontrar uma forma, um caminho, um jeito de seguir em frente e viver, apesar da dor. Encontrar tudo aquilo e aqueles que ainda tenho e trazem cores ao viver para amenizar a sombra do luto.

Quando um médico me pede para preparar a família de um paciente paliativo, sei que sou enviado para uma missão provavelmente impossível, pois particularmente não acredito na idéia de estar preparado para perder quem amamos, não importa se a finitude foi anunciada ou repentina, a dor da despedida só não dói no peito de quem não ama.

 

Por que lembrar da pessoa que morreu faz parte desse caminho, em vez de esquecer?

Lembrar de quem perdemos é importante, principalmente quando lembramos com carinho e consideramos aquilo que a pessoa em memória gostava e o que era importante para ela, talvez essa seria uma forma de manter alguém vivo dentro de nós.

Um paciente em tratamento oncológico (radioterapia) foi encaminhado para o atendimento psicológico, em nossa primeira conversa descobri que o motivo do encaminhamento não era o câncer, ele estava em luto há dois anos.  Recusava sair, divertir-se, fazer qualquer coisa que proporcionasse o mínimo de prazer, se tentasse, o sentimento de culpa aparecia, sentia como se fosse desrespeitoso a felicidade sem a mulher amada. Sem filhos, idade avançada, seguia a solidão e dormia abraçado a um vestido dela na tentativa de aliviar a saudade.

Em nossa conversa fiz algumas perguntas que o levaram trazer à memória sua mulher e tantos bons e belos momentos vividos com ela, perguntei de lugares preferidos, gostos e outras coisas que a descrevia.

Enquanto me contava, em certo momento, perguntei a ele como ela se sentiria se alguém a encontrasse em qualquer lugar do outro lado e contasse como ele estava vivendo, ele respondeu sem pensar que ela sofreria muito, perguntei qual seria a recomendação dela em relação a seu modo de viver, o que ela gostaria que ele fizesse, como ele poderia viver para de alguma forma ela estar feliz caso existisse a possibilidade de ela saber sobre ele. Vale ressaltar que tudo isso bem explicado, sem espiritualizar, falando de uma maneira a usarmos a imaginação. Por fim, o desafiei a ir aos locais que eles costumavam ir juntos e ir e lembrar dos bons momentos e agradecer por ter vivido tais momentos.

Ele não apareceu mais para as próximas sessões, aproximadamente um mês depois ele pediu para marcar comigo novamente, fui preocupado ao nosso encontro e me surpreendi, ele só viera agradecer, pois nunca tinha pensado ou considerado olhar para outras direções, como fizemos em nossa conversa. Lembrar com carinho, sem dúvida, traz mais conforto do que qualquer tentativa frustrada de esquecer alguém tão importante.

Robson Gimenez: “Adaptar-se, reconfigurar, ressignificar, encontrar uma forma, um caminho, um jeito de seguir em frente e viver”

 

As fases do luto descritas por Elizabete Kubler – Ross ainda são válidas na psicologia contemporânea? Como elas costumam se manifestar na vida das pessoas enlutadas?

Sem dúvidas as fases do luto são válidas atualmente, um processo complexo em que pode aparecer fases/momentos de negação numa tentativa de se defender de tamanha dor, raiva por uma suposta injustiça que está sofrendo e, nesses momentos de revolta, podendo canalizar nas pessoas a sua volta. Barganha surge quando alguém se apega à espiritualidade de maneira desesperada, tentando encontrar alívio para a dor, vale ressaltar que particularmente considero a espiritualidade fundamental para a vida de maneira geral, depressão marcada pelos momentos de profunda tristeza, vazio, inatividade e isolamento quando possível, a aceitação acontece quando a pessoa já está conseguindo se adaptar a ausência, entender que a vida continuou e, apesar de ainda doer, também é possível sorrir e ser feliz.

Vale dizer que não é uma receita de como essas fases costumam acontecer, não há uma ordem correta, além de que, ao vivenciar uma das fases e passar para outra, não quer dizer que aquela fase já passou, elas podem ir e vir por vezes, podem durar por minutos, horas, dias, semanas, meses, etc. Não há regras, são pessoas diferentes, histórias diferentes, sentimentos diferentes. Penso no luto como uma experiência única podendo ser relatada por quem já viveu e quando comparada a outros relatos aparecem tantas semelhanças e também tantas diferenças.

 

Por que o luto não segue um tempo padrão e quais os sinais que indicam que alguém pode estar com dificuldade para elaborar a perda?

A individualidade que impede o padrão. São pessoas e histórias únicas e, mesmo que sejam pessoas que ocupem o mesmo papel social que perdemos, essas pessoas são diferentes. Como por exemplo: eu e você perdemos o pai. Nossos relacionamentos e nossas histórias com esses pais provavelmente sejam muito distintas e não poderemos dizer que sabemos como é perder um pai, sabemos apenas como é perder o nosso pai, o luto do outro pode caminhar completamente diferente do nosso.

A dificuldade de elaborar a perda pode ser identificada quando, de certa forma, a pessoa recusa-se a seguir, quando a inatividade e o isolamento prevalecem e a pessoa não quer se relacionar nem mesmo com pessoas que ama e que são tão importantes quanto a pessoa que perdeu, não consegue sentir alegria nem mesmo nos lugares preferidos ou com as pessoas que mais ama, perde-se a vontade de viver. De certa forma, podem existir momentos em que a pessoa se sinta assim em suas fases do luto, mas permanecer por muito tempo pode indicar o nível da dificuldade.

 

De que forma manter a memória de quem partiu pode ajudar na reconstrução emocional de quem ficou, sem impedir que a vida siga adiante?

Quando amamos alguém, provavelmente queremos o melhor para essa pessoa, há grandes chances de que a pessoa que perdemos seja alguém que também nos ame e gostaria de nos ver bem e felizes. Existe quem acredita que sofrer muito é uma grande demonstração de amor e que, se eu parar de sofrer, pode ser um sinal de que essa pessoa não era tão importante. Mas quando lançamos outro olhar e mantemos as boas recordações, os bons sentimentos, valorizamos a pessoa a ponto de levar em consideração o quanto essa pessoa gostaria de ver nossas vidas fluindo, o peso da culpa por se permitir sorrir começa a dissipar e fica mais leve quando, ao invés de sofrer como prova do meu amor, eu decido ser feliz por amar e saber o quanto também sou/fui amado.