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Gazeta Itapirense

Outono, por Guilherme Reis, escritor itapirense

No quarto, a bagunça permanece
como se alguém tivesse partido
e levado consigo
a única razão para arrumar as coisas.

No meu braço,
o nome dela ainda existe.
Mãe, perdoe-me,
eu não queria que você visse
que algumas dores
aprendem a escrever na pele.

A manhã chegou outra vez,
igual a todas as anteriores.
O chá esfriou na mesa,
a fumaça subiu pela janela,
e a cidade continuou
sem notar minha existência.

Lá fora,
as folhas caem em silêncio,
como quem pede ajuda
a um céu que já não responde.
Mas ninguém escuta as folhas.
Ninguém escuta nada.

O outono virá.
Molhará o asfalto,
as calçadas,
os bancos vazios,
os rostos cansados
e as lembranças que insistem em sobreviver.

Ele virá sem perguntar.
Como sempre.
Sem perguntar
se ainda dói.
Sem perguntar
se eu consegui esquecer.

Talvez eu nem me importe mais.

Nas noites úmidas,
quando o vento bate nos vidros
e a cidade adoece lentamente,
eu navegarei por páginas sem destino,
procurando algo
que já não sei nomear.

Depois do primeiro trovão,
há pessoas que aprendem a carregar guarda-chuvas.
Eu aprendi
a não sair mais de casa.

Há muito tempo
não procuro novas impressões,
novas ruas,
novos amores.
Correr sob a chuva e rir
já não pertence ao meu mundo.

Gostaria de dizer
que isso significa crescer.
Mas estaria mentindo.

Eu não cresci.
Não amadureci.
Não superei.
Apenas permaneci aqui,
observando as estações passarem
pela janela,
enquanto o outono,
indiferente,
continua chegando
sem nunca me perguntar
se estou pronto.

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Este texto é de autoria de Guilherme Reis, escritor itapirense que explora, em suas obras, temas variados que vão do amor à ficção científica, sempre com uma abordagem criativa, reflexiva e marcada pela imaginação.

Para conhecer mais trabalhos do autor e mergulhar em diferentes universos literários, visite as páginas abaixo:

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