O interior cresceu. A infraestrutura precisa acompanhar; por Vinícius Marchese
O mapa econômico de São Paulo mudou. A infraestrutura precisa acompanhar essa mudança.
Durante décadas, falar em desenvolvimento paulista significava olhar principalmente para a capital e sua região metropolitana. Essa realidade já não explica o estado que temos hoje. O interior consolidou polos industriais, tecnológicos, agrícolas e de serviços, atrai investimentos, gera empregos e participa de cadeias produtivas que ultrapassam as fronteiras de São Paulo e do próprio país.
Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Dados mais recentes da Fundação Seade mostram que, no primeiro trimestre de 2026, o PIB cresceu em 14 das 20 regiões analisadas na comparação com o trimestre anterior. São José dos Campos avançou 4,9%, Bauru, 1,6%, e Campinas e Sorocaba, 1,5% cada. Em 2025, somente a região administrativa de Campinas movimentou R$ 748 bilhões em valores correntes. Sorocaba superou R$ 201 bilhões e São José dos Campos chegou a R$ 200 bilhões.
São números que mostram um estado economicamente muito maior do que sua capital. Mas essa descentralização da riqueza precisa ser acompanhada pela descentralização das oportunidades e da infraestrutura.
Não existe desenvolvimento regional duradouro quando a economia chega antes da infraestrutura.
Uma nova indústria não depende apenas do terreno onde será instalada. Precisa de energia confiável, acesso rodoviário, conectividade, saneamento, trabalhadores qualificados e boas condições para transportar sua produção. Uma cidade que cresce também precisa ampliar sua capacidade de oferecer moradia, mobilidade, abastecimento de água e tratamento de esgoto.
Mesmo no estado mais rico do país, ainda há desafios básicos a enfrentar. Dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico, reunidos pela Arsesp, apontam índice de coleta de esgoto de 80,88% em São Paulo. O atendimento de água está próximo da universalização, em 99,27%, mas o próprio contraste entre os indicadores mostra que infraestrutura não avança de maneira uniforme.
A conectividade é outro exemplo. Internet de qualidade deixou de ser comodidade há muito tempo. Hoje é infraestrutura econômica. Está na agricultura de precisão, na indústria, na logística, nos serviços públicos, na educação, na saúde e na capacidade de pequenos negócios competirem em mercados maiores. O cronograma nacional de implantação do 5G mostra que a cobertura dos municípios menores ainda é uma agenda em construção. Para cidades com menos de 30 mil habitantes, a meta estabelecida é alcançar pelo menos 30% delas até o fim de 2026 e chegar à totalidade apenas em 2029.
Isso ajuda a revelar uma questão central. O interior paulista cresceu, diversificou sua economia e assumiu novas responsabilidades, mas parte da infraestrutura ainda responde a uma realidade que ficou para trás.
Planejar o desenvolvimento significa identificar onde estarão os novos empregos, empreendimentos, moradias e fluxos de pessoas e mercadorias. Significa preparar rodovias, redes de energia, saneamento, conectividade e serviços públicos antes que o crescimento se transforme em congestionamento, aumento dos custos logísticos, pressão urbana ou perda de competitividade.
Também é preciso abandonar a ideia de que existe uma única política para o interior. São José dos Campos tem uma vocação econômica diferente de Ribeirão Preto. Campinas enfrenta desafios distintos de Presidente Prudente. Sorocaba não tem as mesmas necessidades de Bauru, Franca ou Marília. E os pequenos municípios convivem com dificuldades próprias, inclusive para estruturar projetos e acessar investimentos.
Política pública eficiente começa pelo território. É preciso entender as vocações de cada região e conectar investimento público, infraestrutura e desenvolvimento econômico a uma estratégia de longo prazo.
São Paulo tem conhecimento, universidades, centros de pesquisa, indústria, agronegócio, capacidade empresarial e profissionais preparados. O que não podemos aceitar é que gargalos de infraestrutura coloquem um teto sobre esse potencial.
O interior não pode ser lembrado apenas quando seus indicadores econômicos são positivos ou quando suas empresas anunciam novos investimentos. Se essas regiões ajudam a produzir a riqueza de São Paulo, precisam ter condições para continuar crescendo e transformar crescimento econômico em qualidade de vida.
Infraestrutura não é uma consequência do desenvolvimento. É uma das condições para que ele aconteça.
O próximo salto econômico de São Paulo dependerá da nossa capacidade de compreender essa mudança e preparar o estado para ela. O interior já mostrou que sabe produzir riqueza. Agora, o poder público precisa garantir que a infraestrutura avance na mesma direção.

Vinicius Marchese
Candidato a deputado federal por São Paulo, engenheiro de Telecomunicações, presidente licenciado do Confea e doutorando em Cidades Inteligentes e Sustentáveis.





