O Brasil não pode perder o momento da inteligência artificial; por Nelson Theodoro
A inteligência artificial já está transformando a economia. A questão é se o Brasil vai participar dessa transformação como protagonista ou continuar esperando enquanto outros países avançam.
No artigo publicado no Valor Econômico em 4 de novembro de 2026, Andriei Gutierrez e Rony Vainzof defendem uma agenda digital capaz de transformar os nossos ativos em produtividade, competitividade e desenvolvimento. A reflexão merece atenção: temos talento, mercado, energia renovável e dados, mas precisamos de coordenação e condições para transformar esse potencial em resultados.
Essa discussão me faz lembrar de um exemplo que faz parte do cotidiano: os postos de combustíveis.
Nos Estados Unidos, o autoatendimento é comum em grande parte do país. No Brasil, a Lei nº 9.956/2000 proíbe o funcionamento de bombas de autosserviço nos postos de abastecimento.
O contraste provoca uma reflexão: como vamos aproveitar as oportunidades da inteligência artificial se ainda mantemos barreiras legais à automação de atividades que, em outros lugares, já fazem parte da rotina?
A comparação também aparece no bolso do consumidor. Nos Estados Unidos, os combustíveis frequentemente custam menos que no Brasil. Evidentemente, essa diferença não pode ser atribuída apenas ao autoatendimento: impostos, câmbio, produção, distribuição e concorrência também influenciam os preços.
Ainda assim, o exemplo ajuda a discutir como produtividade, tecnologia e escolhas regulatórias afetam a economia.
Não podemos permitir que o receio da mudança se transforme em uma política permanente de atraso.
A preocupação com o emprego é legítima e precisa estar no centro dessa conversa. Toda transformação tecnológica exige responsabilidade. Mas proteger os trabalhadores também significa prepará-los para novas funções, ampliar oportunidades e investir em qualificação.
Impedir uma tecnologia pode preservar determinadas tarefas por algum tempo. Isso, por si só, não garante renda, competitividade ou melhores oportunidades no futuro.
Com a inteligência artificial, o desafio ganha outra escala. Ela pode ajudar pequenos negócios a produzir mais, melhorar serviços públicos, reduzir desperdícios e ampliar o acesso ao conhecimento. Para isso, precisamos de infraestrutura, conectividade, segurança jurídica e formação profissional.
Também precisamos de regulação. Uma regulação que proteja direitos, responsabilize abusos e estabeleça obrigações proporcionais aos riscos. Como destacam Gutierrez e Vainzof, as regras precisam oferecer segurança e criar condições para a inovação.
O Brasil já demonstrou capacidade de desenvolver soluções relevantes, como o Pix e os serviços digitais do Gov.br. Temos exemplos concretos de que podemos avançar quando existe uma combinação de competência técnica, coordenação e objetivos claros.
Não podemos perder este momento. Enquanto discutimos se devemos permitir a transformação, outros países estão qualificando trabalhadores, atraindo investimentos e desenvolvendo tecnologias.
A escolha que precisamos fazer agora é como conduzir essa mudança para que seus benefícios cheguem a mais pessoas.
O futuro exige decisões no presente.
Nelson Theodoro Junior, Presidente da Associação Comercial e Industrial de Mogi Mirim, Diretor da Fecomercio-SP, Diretor do Sincomércio de Mogi Mirim e Presidente do Conselho do Patrimônio de Mogi Mirim.




