Mulher sabe votar sim! O que incomoda é o poder de escolha, por Hellen Santos
Traço Feminino
Um espaço acolhedor que trará de forma acessível assuntos necessários como direitos das mulheres, a luta das mulheres negras, a violência contra a mulher e o que fazer nessas situações, dentre outros temas relacionados à mulher.
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Mulher sabe votar sim! O que incomoda é o poder de escolha
Faltam 33 dias para as eleições e, enquanto milhões de brasileiras se preparam para escolher seus representantes, uma velha ideia volta a circular sobre a mulher não saber votar.
Para entender a dimensão dessa discussão, precisamos voltar um pouco no tempo. O voto feminino no Brasil não nasceu de uma concessão generosa dos homens. Foi resultado de uma luta. Em 1932, as mulheres brasileiras conquistaram o direito de votar e de serem votadas. Em 1933, Carlota Pereira de Queirós tornou-se a primeira deputada federal brasileira, ou seja, quando alguém questiona hoje a capacidade feminina de votar, está, de certa maneira, reabrindo uma discussão que mulheres levaram décadas para vencer.
E por que o voto da mulher incomoda tanto? Talvez porque votar seja decidir. Uma mulher que vota está dizendo que tem opinião sobre o país em que vive, ela pode concordar com o marido ou discordar dele. Pode seguir a orientação da família ou não. Pode votar em um candidato (a) de esquerda, de direita, de centro ou em nenhum deles (as).
Essa é a essência da democracia, ter liberdade para escolher. Não existe um único “voto feminino”, as mulheres têm histórias, necessidades, crenças e posições políticas diferentes, e isso precisa ser respeitado.
O problema aparece quando uma mulher faz uma escolha política que desagrada a determinado grupo. De repente, dizem que ela foi manipulada, que votou por emoção, que não entende de política ou que deveria ouvir alguém que “sabe mais”. Curiosamente, homens podem fazer escolhas políticas equivocadas sem que sua capacidade intelectual seja colocada em dúvida.
Quando uma mulher escolhe diferente, muitas vezes o problema passa a ser atribuído à própria mulher.Talvez o problema não seja a mulher votar “mal”, seja a mulher votar por conta própria.
Há uma contradição que merece atenção, principalmente nos partidos que fazem parte da direita e da extrema direita. Mulheres que fazem parte desses movimentos também têm se manifestado contra declarações de homens, como Paulo Figueiredo (influenciador digital), que disse : “Mulher vota muito mal”, causando uma crise entre as mulheres do partido que ele se declara apoiador e elas estão certas.
A mulher de direita tem direito, a mulher de centro tem direito de votar, a mulher de esquerda tem direito de votar também, pois defender a autonomia política feminina não deveria ser uma bandeira partidária, mas ser questão de cidadania.
E nós, mulheres negras? Para nós, essa história ganha ainda outra dimensão. A mulher negra brasileira enfrentou não apenas o machismo, mas também uma estrutura de racismo que durante séculos tentou negar sua condição de cidadã plena, por isso, falar sobre o voto feminino é falar também sobre poder e representação.
Somos maioria entre os eleitores, mas ainda somos minoria nos espaços onde as decisões são tomadas. Nas eleições de 2026, as mulheres continuam representando pouco mais de um terço das candidaturas consideradas para a distribuição dos recursos públicos, é uma contradição, pois se somos maioria entre quem vota e minoria entre quem decide, ficamos muito pouco representadas politicamente.
Essa distância se torna ainda mais evidente pois, somos nós que convivemos diariamente com questões como saúde pública, educação, segurança, emprego, creche, transporte, violência, racismo e desigualdade social, por isso, quando uma mulher negra entra na cabine de votação, ela não precisa que ninguém diga o que é melhor para ela, mas precisa de informação, de liberdade, de representação, e, acima de tudo, precisa ter seu voto respeitado.
As mulheres não precisam votar juntas, não precisam pensar da mesma maneira, pertencer ao mesmo partido ou defender a mesma ideologia, mas precisam preservar o direito de escolher.
Podemos acertar ou errar, mudar de opinião, pois o voto feminino não é um favor, foi conquistado com luta, e continua sendo um instrumento de transformação.
Talvez seja exatamente essa autonomia que ainda incomode, porque uma mulher que vota por vontade própria não é apenas uma eleitora, mas uma cidadã, e uma mulher negra que escolhe livremente afirma algo ainda mais poderoso, sobre uma sociedade que durante séculos tentou decidir por ela, mas agora não pode mais determinar o que ela pensa, quer ou em quem ela deva votar.

Por: Hellen Santos
hellenccsed@gmail.com
Referências
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Voto da mulher. Brasília, DF: Tribunal Superior Eleitoral, [s.d.]. Disponível em: https://www.tse.jus.br/servicos-eleitorais/glossario/termos/voto-da-mulher. Acesso em: 30 ago. 2026.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Quem foi a primeira mulher a se eleger prefeita no Brasil? Brasília, DF: Tribunal Superior Eleitoral, 2024. Atualizado em 8 jul. 2026. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2024/Agosto/quem-foi-a-primeira-mulher-a-se-eleger-prefeita-no-brasil. Acesso em: 30 ago. 2026.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Mais de 158 milhões de eleitores estão aptos a votar nas Eleições 2026. Brasília, DF: Tribunal Superior Eleitoral, 20 jul. 2026. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Julho/mais-de-158-milhoes-de-eleitores-estao-aptos-votar-nas-eleicoes-2026. Acesso em: 30 ago. 2026.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. TSE divulga percentuais de candidaturas de mulheres, pessoas negras e indígenas por partido. Brasília, DF: Tribunal Superior Eleitoral, ago. 2026. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Agosto/tse-divulga-percentuais-de-candidaturas-de-mulheres-pessoas-negras-e-indigenas-por-partido. Acesso em: 30 ago. 2026.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Voto consciente: um forte instrumento de mudança política e social. Brasília, DF: Escola Judiciária Eleitoral, [s.d.]. Disponível em: https://www.tse.jus.br/institucional/escola-judiciaria-eleitoral/publicacoes/revistas-da-eje/artigos/revista-eletronica-ano-ii-no-5/voto-consciente-um-forte-instrumento-de-mudanca-politica-e-social. Acesso em: 30 ago. 2026.
FIGUEIREDO, Paulo. Declarações sobre o voto feminino repercutidas pela imprensa. In: FOLHA DE S.PAULO.“Mulher vota muito mal”, diz bolsonarista Paulo Figueiredo ao atacar Michelle e chamá-la de feminista. São Paulo, 29 jun. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/06/mulher-vota-muito-mal-diz-bolsonarista-paulo-figueiredo-ao-atacar-michelle-e-chama-la-de-feminista.shtml. Acesso em: 30 ago. 2026.





