MP investiga médico de Mogi Guaçu suspeito de incentivar demissões de petistas
O Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) abriu uma investigação para apurar a conduta do médico José Luiz Nora Neto, conhecido como Dr. Nora, filiado ao Partido Liberal (PL) e candidato derrotado à Prefeitura de Mogi Guaçu nas eleições municipais de 2024. A apuração envolve suspeitas de incitação ao assédio eleitoral, assédio moral trabalhista e discriminação política nas relações de trabalho, após publicações feitas pelo médico nas redes sociais.
O caso ganhou repercussão depois que Nora Neto publicou uma mensagem direcionada a empresários, sugerindo que verificassem as redes sociais de seus funcionários para identificar aqueles que teriam manifestado apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito nas eleições presidenciais de domingo (25).
Na publicação, posteriormente excluída, o médico escreveu: “Empresário, olha a rede social do teu funcionário aí e confere se ele fez o ‘L’. Acho que não faz sentido nenhum manter na tua empresa quem odeia empresários”.

A manifestação foi interpretada pelo Ministério Público como possível incentivo à adoção de medidas discriminatórias contra trabalhadores em razão de suas preferências políticas. A promotora de Justiça Carolina Carvalho Ferreira Alves Nassa apontou que o conteúdo pode representar incitação ao assédio eleitoral, à discriminação política nas relações de trabalho e ao assédio moral trabalhista.
Diante da situação, o MPSP solicitou que a Polícia Civil apure os fatos por meio de investigação criminal, buscando esclarecer as circunstâncias das publicações e eventual responsabilidade do médico.
Médico publicou vídeo após repercussão
Após a divulgação do caso e a repercussão das declarações, Dr. Nora publicou um vídeo em suas redes sociais para apresentar sua versão sobre o episódio.
Na gravação, intitulada como uma retratação, o médico afirmou que não teve a intenção de promover uma perseguição política ou incentivar uma espécie de “caça às bruxas” contra trabalhadores por causa do voto.
Ele argumentou que sua manifestação também se referia a pessoas de direita que fossem contrárias ao empreendedorismo e afirmou que, em sua avaliação, trabalhadores que não compartilham dos valores de uma empresa não deveriam permanecer nela.
Durante o pronunciamento, também direcionou críticas a setores da esquerda e aconselhou pessoas insatisfeitas com seus empregadores a procurarem empresas com posicionamentos ideológicos semelhantes aos seus.
Apesar da manifestação posterior, a investigação do Ministério Público segue relacionada ao conteúdo originalmente publicado e à possibilidade de que a mensagem tenha estimulado empresários a adotar práticas discriminatórias contra funcionários por suas escolhas eleitorais.
Deu sua versão
Procurado pela reportagem da Gazeta, o médico deu sua versão: “já foi explicado que foi pego um corte de uma fala e não a fala toda. O Ministério Público vai fazer o papel dele, que é apurar os fatos, mas nós já temos a certeza que o Ministério Público vai constatar que não houve crime nenhum de discriminação”.
Caso ocorre em meio a aumento de denúncias de assédio eleitoral
A investigação envolvendo o médico de Mogi Guaçu ocorre em um cenário de preocupação das autoridades com manifestações de pressão e discriminação política no ambiente de trabalho após as eleições presidenciais de 2026.
Dados divulgados pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) apontaram o recebimento de 3.290 denúncias de assédio eleitoral durante o período eleitoral. Desse total, 1.143 registros foram feitos entre a noite de domingo (25), data do segundo turno, e a tarde de quarta-feira (28).
As denúncias envolvem situações de pressão, ameaças, constrangimentos e possíveis represálias contra trabalhadores em razão de suas escolhas políticas.
Diante do aumento dos registros, o Governo Federal anunciou uma atuação conjunta entre diferentes instituições, incluindo o Ministério do Trabalho e Emprego, o Ministério Público do Trabalho, a Advocacia-Geral da União e o Tribunal Superior do Trabalho, para combater práticas de assédio eleitoral e discriminação no ambiente profissional.
A legislação brasileira assegura a liberdade de consciência e o sigilo do voto. A Lei Federal nº 9.029/1995 também proíbe práticas discriminatórias para acesso ou manutenção da relação de trabalho.
Investigação continua
A apuração conduzida pelo Ministério Público busca esclarecer se as manifestações atribuídas ao médico ultrapassaram os limites da liberdade de expressão e configuraram estímulo à discriminação de trabalhadores por suas convicções políticas.
Até o momento, a abertura da investigação não representa uma conclusão sobre a responsabilidade criminal do médico. Os fatos ainda dependem de apuração pelas autoridades competentes.
Após a repercussão do caso, Nora Neto divulgou seu posicionamento em vídeo nas redes sociais, negando que tivesse a intenção de promover perseguição política. O espaço para eventuais novos esclarecimentos e manifestações sobre a investigação permanece aberto.
Trajetória política em Mogi Guaçu
Dr. Nora disputou a Prefeitura de Mogi Guaçu nas eleições municipais de 2024, pelo Partido Liberal (PL). Na ocasião, terminou em segundo lugar, com 22.329 votos, atrás de Rodrigo Falsetti (PSD), que foi eleito com 51.329 votos.
Durante a campanha eleitoral daquele ano, o médico também esteve envolvido em outro episódio de grande repercussão. A van blindada em que estava acompanhado de outras cinco pessoas foi atingida por disparos de arma de fogo na Rodovia Vice-Governador Almino Monteiro Álvares Afonso, no distrito de Martinho Prado Júnior.
O episódio foi investigado pela Polícia Civil como tentativa de homicídio. Conforme as informações divulgadas na época, ninguém havia sido preso.




