Gazeta Itapirense

Ministério Público de Contas denunciou livreto do kit bucal comprado por Toninho Bellini

Uma denúncia envolvendo material didático de saúde bucal em outro município brasileiro acendeu um alerta que ecoa diretamente em Itapira por envolver o ‘kit de higiene bucal’ comprado de forma superfaturada pelo prefeito Toninho Bellini junto à Editora Camano Sá.

Enquanto o Ministério Público de Contas investiga irregularidades graves na aquisição de livretos em Jaguaribara, no Ceará, a situação em Itapira apresenta semelhanças preocupantes— especialmente no que diz respeito à qualidade do conteúdo, erros gramaticais e gráficos, indícios de uso de inteligência artificial sem revisão adequada e superfaturamento na compra do material. Lá, a fornecedora também foi a Editora Camano Sá.

No caso de Jaguaribara, no Ceará, a representação aponta falhas consideradas graves: erros ortográficos, imagens desconexas, problemas de proporção em ilustrações e até indícios técnicos de que o material teria sido produzido por ferramentas de inteligência artificial, como o DALL-E.

Segundo a análise, o conteúdo apresenta inconsistências visuais típicas desse tipo de tecnologia, como membros deformados, escalas irreais e ausência de coerência entre texto e imagem. Além disso, o órgão questiona o processo de contratação, destacando ausência de justificativa adequada, possível falha na pesquisa de mercado e indícios de sobrepreço — elementos que motivaram pedido de medida liminar.

O que chama atenção é que, em Itapira, a realidade exposta em reportagem da Gazeta segue um roteiro bastante semelhante.

O livreto “Aventura da Escovação”, adquirido junto com kits de higiene bucal pela Prefeitura da cidade cearense, também apresenta uma série de falhas que comprometem sua finalidade educativa. Entre os problemas identificados estão erros ortográficos, uso inadequado de pontuação, ilustrações com elementos inexistentes — como animais com partes do corpo duplicadas ou ausentes — e cenas que não correspondem ao texto apresentado.

As inconsistências visuais são especialmente alarmantes. Personagens aparecem com deformidades, objetos surgem sem lógica e há total desconexão entre narrativa e imagem em diversos trechos. Situações como escovas com múltiplas cabeças, animais com membros extras ou inexistentes e elementos descritos no texto que simplesmente não aparecem nas ilustrações reforçam a suspeita de que o material possa ter sido gerado, ao menos em parte, por inteligência artificial — sem o devido cuidado editorial.

No caso investigado pelo Ministério Público de Contas, a preocupação não se limita à estética ou a erros pontuais. Trata-se de material destinado a crianças, em fase de formação educacional, o que exige rigor técnico, clareza e precisão. A entrega de um conteúdo com esse nível de falhas levanta questionamentos sobre a responsabilidade na escolha e validação do material.

Outro ponto que aproxima os dois casos é o custo elevado. Em Itapira, cada kit foi adquirido por cerca de R$ 165, valor significativamente superior ao vendido pela mesma empresa em seu site que apontava para R$ 79,90. A diferença de preços e o peso do livreto no valor final ampliam ainda mais as dúvidas sobre a relação entre custo e qualidade e evidencia um superfaturamento descarado tanto no Ceará quanto em Itapira.

A comparação entre os dois cenários evidencia um padrão preocupante: materiais de baixa qualidade, com indícios de produção automatizada, sendo adquiridos com recursos públicos e destinados ao uso educacional.

Mais do que uma questão administrativa, o que está em jogo é a aplicação correta do dinheiro público e o direito das crianças a um material educativo de qualidade. Quando erros básicos, incoerências e possíveis falhas estruturais passam despercebidos — ou são ignorados — o prejuízo ultrapassa o financeiro e atinge diretamente a formação das futuras gerações.

A semelhança entre os dois casos não pode ser tratada como coincidência. Pelo contrário, ela reforça a necessidade de transparência, responsabilidade e, sobretudo, fiscalização rigorosa sobre como e com que critérios são feitas essas aquisições.

Vale destacar que, em diversas cidades brasileiras, a Editora Camano Sá já é alvo de questionamentos e investigações envolvendo o preço dos materiais, a qualidade do conteúdo fornecido e a forma como os processos de aquisição foram conduzidos pelas prefeituras.

Abaixo o link da denúncia do Ministério Público de Contas:

https://www.tce.ce.gov.br/downloads/00394-2025-8-Aquisio_de_material_pedaggico-Jaguaribara.pdf