Mais de 50 anos de estrada: Tatu e uma vida inteira dedicada à música
Aos 69 anos, mais de cinco décadas depois de subir pela primeira vez a um palco, o músico José Otávio Fernandes — mais conhecido como Tatu — continua vivendo aquilo que define em uma única palavra: “Tudo”. “Minha vida inteira, meu pensamento é com a música”, resume.
O músico itapirense começou cedo. Foi em 1972 que deu os primeiros passos profissionais, ainda adolescente, com 16 anos. Naquela época, o teclado — então representado pelos grandes órgãos — era artigo de luxo, acessível apenas às bandas maiores. Por isso, ele iniciou a trajetória na guitarra.
“Eu comecei com a guitarra porque as bandas menores não tinham condição de comprar teclado. Então a gente tinha que ter duas guitarras: uma para acompanhar e outra para fazer solo”, relembra.
Apesar do início nas cordas, a paixão verdadeira era o contrabaixo. E foi justamente nessa transição que consolidou seu espaço nas bandas da região, tocando com grupos tradicionais de Itapira, Mogi Mirim e cidades vizinhas. Entre os primeiros trabalhos, destaca a banda Momento 6, Os Musicais, de Mogi Mirim, ao lado do maestro Vicente Muniz, Super Som, de Andradas, além de passagens por conjuntos de baile que faziam sucesso.

Destaque também para parceiros de palco como Bitenka e Carlos Moysés. “Toquei com o Moysés (Carlos) no Caras e Coroas que era um grupo de Samba do Bairral”, lembrou.
A virada definitiva para o teclado aconteceu quando passou a integrar o grupo que daria origem ao Musical Champagne, banda que ajudou a fundar há cerca de 40 anos. “Foi eu, o Roberto Rocha — já falecido — e o Gustavo Giovelli. A gente começou junto”, conta.
Hoje, o grupo é formado por Tatu nos teclados, Luizinho (cantor e percussionista) e Tina, cantora e percussionista de Mogi Guaçu, que está na formação há duas décadas. Ao longo dos anos, a banda já chegou a ter cinco integrantes.
Além de tocar, Tatu assumiu também a parte tecnológica do espetáculo. Ele programa baterias e bases no computador — sistema conhecido como VS — criando pistas que complementam o som ao vivo. “Por exemplo, o que eu não vou ter ali ao vivo, eu faço em pistas. Programo bateria, faço tudo no teclado”, explica.

Ao longo da carreira, o músico já tocou em praticamente todos os clubes de São Pauilo, Campinas, Piracicaba, Circuito da Águas, Itapira e região. Foram incontáveis casamentos, formaturas e bailes — muitos organizados por empresas tradicionais do setor de eventos.
Mas algumas apresentações ficaram marcadas pela surpresa.
Uma delas aconteceu no Hotel Transamérica, em São Paulo, sem que a banda soubesse da grandiosidade do evento. “A gente não estava sabendo nada. Chegamos lá e era o melhor hotel de São Paulo na época”, recorda.
Entre os convidados estavam pilotos da Fórmula 1, na era de Ayrton Senna e Alain Prost. “Eles estavam lá. A gente tocou a festa”, conta, com naturalidade de quem sempre tratou qualquer palco com a mesma dedicação.
Em outra ocasião, no Clube dos Juízes, também na capital, a banda enfrentou dificuldades para descarregar os equipamentos. “A gente tinha que parar a 100 metros do clube e subir tudo pelas escadas. Não podia usar o elevador com som. A gente quase morreu”, relembra, entre risos.
Embora tenha dedicado praticamente toda a vida à arte, Tatu teve apenas um trabalho fora da música: durante cerca de quatro anos atuou no Bairral. Ainda assim, a atividade envolvia som.
“Era para eu fazer banda com os pacientes, show de calouros. Mesmo lá, era com música”, diz.
Hoje, além das apresentações, ele também trabalha com programação de timbres para teclados, personalizando sons para músicos do Brasil e até do exterior.
“Eu tenho muita facilidade de programar. O cara ouve uma música e fala: ‘Quero esse som no meu teclado’. Aí passa para mim e eu programo. Esses dias vendi para um cara da Itália. Ele ficou louco e até me convidou para ir lá.”
Ao longo da carreira, Tatu tomou decisões movidas mais pelo coração do que pelo mercado. Em determinado momento, deixou uma banda consolidada para permanecer ao lado de amigos músicos.
“Eu saí de uma banda boa porque meus amigos não conseguiam acompanhar. Fiquei com eles. Vamos trabalhar em cima disso, eles vão ficar bons. E foi isso que aconteceu.”
Para ele, sucesso nunca foi apenas estrutura ou fama — mas parceria e prazer em tocar.
“Eu vivo em música. Vivo em música.”
E assim segue José Otávio Fernandes, o Tatu: 53 anos depois do primeiro acorde profissional, ainda fiel àquilo que sempre guiou sua trajetória — a paixão pelo palco, pelos amigos e pelo som.






