Jovem itapirense transforma curiosidade pelo passado em trajetória de pesquisa
Aos 14 anos, começou a fazer perguntas sobre suas origens. Anos depois, aos 19 transformou a curiosidade em paixão pela genealogia, recuperou histórias familiares, corrigiu registros e hoje prepara livro sobre suas raízes italianas.
Há pessoas que simplesmente conhecem suas origens. Outras sentem necessidade de ir além: perguntar, investigar, comparar documentos, ouvir relatos, procurar nomes esquecidos e tentar compreender aquilo que aconteceu antes delas.
É assim que o jovem itapirense Allan Fernando Libonatti Delgado Francisco de Camargo, hoje com 19 anos, define sua relação com o passado. Muito antes de se tornar uma pesquisa propriamente dita, a curiosidade já fazia parte de sua personalidade.

Desde a infância, Allan sempre foi uma criança que perguntava. Queria entender as histórias que ouvia, saber quem eram as pessoas das fotografias antigas, de onde vinham determinados sobrenomes e por que certos acontecimentos haviam ocorrido. Aos 14 anos, porém, essa curiosidade ganhou uma nova dimensão.
Foi nessa idade que começou a questionar de maneira mais profunda e sistemática a própria história familiar.
Uma pergunta levava a outra, uma descoberta conduzia a um novo documento e, pouco a pouco, aquilo que poderia ter sido apenas uma curiosidade adolescente transformou-se em uma verdadeira trajetória de pesquisa.

“Eu sempre fui curioso com o passado. Desde pequeno eu perguntava, questionava e tentava entender. Aos 14 anos comecei a olhar para isso de uma maneira diferente. Passei a buscar respostas e percebi que, quanto mais eu descobria, mais coisas existiam para pesquisar”, explica.
ENTRE DOCUMENTOS, FOTOGRAFIAS E MEMÓRIAS
O interesse pela história familiar fez com que Allan se aproximasse cada vez mais da genealogia. Ele passou a pesquisar documentos, certidões, registros, fotografias e diferentes fontes, procurando cruzar informações para reconstruir trajetórias que, em alguns casos, haviam permanecido durante décadas apenas na memória da família.
Uma de suas primeiras grandes frentes de pesquisa foi a história de sua bisavó Sebastiana Delgado, personagem que se tornou especialmente importante em sua relação com o passado.
Também passaram a fazer parte de suas investigações as histórias de sua bisavó Maria Rita e de sua mãe, Francisca, ampliando a pesquisa para diferentes gerações e permitindo que Allan enxergasse a família não apenas como uma sequência de nomes, mas como um conjunto de vidas, escolhas, dificuldades, afetos e acontecimentos.
Para ele, pesquisar genealogia não significa simplesmente montar uma árvore familiar.
“Genealogia, para mim, é muito mais do que descobrir nomes e datas. É tentar entender quem foram essas pessoas, como viveram, o que enfrentaram e quais caminhos fizeram até chegar às gerações atuais.”

UMA PESQUISA QUE TAMBÉM BUSCOU CORRIGIR ERROS E INJUSTIÇAS
Com o aprofundamento das pesquisas, Allan percebeu que nem todas as informações encontradas estavam corretas. Havia divergências documentais, nomes registrados de maneiras diferentes, informações que precisavam ser esclarecidas e situações que, segundo suas pesquisas, representavam erros ou injustiças cometidas ao longo do tempo.
Foi então que o pesquisador decidiu não apenas descobrir, mas também corrigir aquilo que fosse possível corrigir.
“Quando percebi alguns erros e algumas situações que considerei injustas, eu me propus a buscar a correção. Não queria simplesmente encontrar o problema e deixar como estava. Fui atrás de documentos, informações e caminhos possíveis para tentar reparar essas situações.”
E algumas dessas buscas tiveram resultado.
Allan conseguiu obter êxito em processos de pesquisa e correção relacionados à história de sua família, recuperando informações e buscando restabelecer versões documentais que considerava mais fiéis à realidade histórica.
Para ele, essas conquistas possuem um significado que ultrapassa o âmbito pessoal.
“Quando você encontra um erro histórico dentro da própria família e consegue corrigi-lo, existe uma sensação muito grande de justiça. É como se você estivesse devolvendo a uma pessoa ou a uma família uma parte da história que havia sido perdida ou registrada de maneira equivocada.”
O CASO DOS CANDREVAS
Entre os trabalhos que considera especialmente significativos está sua pesquisa relacionada à família Candreva.
A investigação envolveu documentos, registros familiares e informações que precisaram ser confrontadas e analisadas. Com persistência, Allan conseguiu avançar na pesquisa e também obter êxito em correções relacionadas à história dos Candrevas.
O trabalho demonstrou, segundo ele, a importância de não aceitar automaticamente toda informação encontrada.
“Uma das coisas que aprendi é que um documento não encerra necessariamente uma pesquisa. Às vezes ele abre outras perguntas. É preciso comparar, procurar outras fontes, entender o contexto e verificar se as informações realmente fazem sentido.”
Essa postura acabou se tornando uma característica de seu modo de pesquisar: perguntar antes de aceitar, investigar antes de concluir e procurar evidências antes de registrar uma informação como verdade.
O ORGULHO DE SER BISNETO DE ZÉ CHICO
Entre tantas histórias familiares pesquisadas, uma ocupa um lugar especial no coração de Allan: a de seu bisavô José Francisco Filho, conhecido como Zé Chico.
Aos 19 anos, o jovem fala com orgulho sobre o legado que descobriu ao aprofundar suas pesquisas.
Zé Chico foi, segundo a história familiar e as pesquisas realizadas por Allan, uma figura ligada à construção do Mercado Municipal de Itapira, o conhecido Mercadão. Allan destaca com orgulho a participação de seu bisavô na obra, inclusive na elaboração da planta e na construção do prédio, que marcou a história da cidade.
Para ele, descobrir essa trajetória mudou também a maneira como passou a enxergar sua própria história familiar.
“Eu tenho muito orgulho de ser bisneto do Zé Chico. Descobrir a história dele e saber que ele deixou uma contribuição para Itapira foi muito importante para mim. Não é apenas uma história da minha família; é uma história que se relaciona com a própria cidade.”
A pesquisa familiar, nesse caso, ultrapassou os limites da genealogia doméstica e encontrou a memória pública de Itapira.
E Allan também procurou contribuir para que essa memória permanecesse viva.
UMA HOMENAGEM QUE ULTRAPASSA A PESQUISA
Em meio às pesquisas e aos esforços para preservar a história de José Francisco Filho, Allan também participou das iniciativas que contribuíram para que o nome de seu bisavô fosse eternizado no próprio Mercado Municipal de Itapira.
A futura homenagem representa, para ele, um momento especialmente significativo.
“Eu quis contribuir para que o nome dele fosse eternizado no Mercadão. Para mim, isso tem um significado enorme. É uma maneira de fazer com que as pessoas que passarem por aquele lugar no futuro saibam que existiu um homem chamado José Francisco Filho, o Zé Chico, que teve uma história e uma contribuição para Itapira.”
A futura inauguração da homenagem será, portanto, mais do que um acontecimento familiar. Para Allan, será a concretização de uma das ideias que sempre acompanharam suas pesquisas: a memória precisa ser preservada para continuar existindo.
O jovem que começou a perguntar sobre seus antepassados aos 14 anos agora vê parte de uma dessas histórias ganhar espaço na própria cidade onde sua família construiu sua trajetória.
“VOCÊ TEM OS OLHOS DA MINHA MÃE”
A relação de Allan com a genealogia também possui um componente profundamente afetivo.
Sua avó materna, Maria Benedicta, teve papel importante nessa história. Desde pequeno, Allan cresceu ouvindo histórias e convivendo com memórias familiares que, anos depois, se tornariam parte de suas pesquisas.
Entre as lembranças que carrega está uma frase que ouviu ainda criança:
“Você tem os olhos da minha mãe.”
A frase, aparentemente simples, ficou registrada em sua memória.
Com o passar dos anos, ao encontrar fotografias antigas e observar os rostos de seus antepassados, aquela lembrança ganhou outro significado.
“Eu era pequeno quando minha avó falou isso. Ficou gravado em mim. Hoje, quando pesquiso e encontro fotografias, quando observo os rostos e as semelhanças entre as gerações, eu lembro daquela frase.”
Para Allan, é justamente essa mistura entre documentação e memória afetiva que torna a genealogia tão especial
.
“COMO SE ELES ESTIVESSEM COMIGO”
Ao longo das pesquisas, Allan também desenvolveu uma relação muito particular com as pessoas que vieram antes dele.
Ele conta que, desde o início, teve a sensação de que seus antepassados estavam de alguma maneira presentes durante a caminhada.
“Desde o começo eu senti como se eles estivessem comigo. É difícil explicar. Quando encontro uma fotografia, um documento ou uma informação que estava perdida, parece que estou me aproximando daquela pessoa. É uma sensação muito forte.”
A pesquisa de sua bisavó Sebastiana, em especial, tornou-se uma das histórias que mais despertaram seu interesse. A partir dela, Allan passou a olhar também para as mulheres de sua família, suas trajetórias, seus trabalhos, suas escolhas e as circunstâncias em que viveram.
O APOIO DA FAMÍLIA
Nenhuma dessas pesquisas, segundo Allan, teria o mesmo significado sem o apoio de sua família.
Ele destaca especialmente o incentivo recebido dos pais e, principalmente, dos avós, que contribuíram para preservar histórias, lembranças e informações que serviram como ponto de partida para muitas das investigações.
“Eu sempre tive o apoio dos meus pais e principalmente dos meus avós. Muitas vezes uma pesquisa começa com uma lembrança contada dentro de casa. Depois você vai atrás dos documentos e começa a descobrir uma história muito maior.”
Foi dessa maneira que a memória oral e a documentação passaram a caminhar juntas em seu trabalho.
A GENEALOGIA COMO PAIXÃO
O envolvimento com as pesquisas fez com que Allan buscasse também formação na área. Ele realizou um curso de curta duração sobre genealogia, aprofundando conhecimentos que já vinha adquirindo por conta própria.
Hoje, fala sobre o tema com entusiasmo.
“Eu amo genealogia. Amo pesquisar. Amo conversar. Gosto de ouvir pessoas e conhecer histórias. Para mim, é uma paixão de verdade.”
A pesquisa também o levou a desenvolver interesse pela história local e pela preservação da memória de pessoas que fizeram parte da comunidade.
Mais do que reunir informações para sua própria família, Allan passou a enxergar a pesquisa como uma maneira de preservar histórias que poderiam desaparecer.
ENTRE O PASSADO E O FUTURO
Apesar de dedicar grande parte de seu tempo às pesquisas históricas e genealógicas, Allan também constrói sua formação acadêmica.
Atualmente, cursa Engenharia Civil, conciliando os estudos universitários com sua paixão pela história, pelos documentos e pela escrita.
A aparente distância entre as áreas não o incomoda. Pelo contrário: para ele, diferentes conhecimentos fazem parte de uma mesma trajetória de aprendizado.
Além da graduação, Allan também atua como escritor e pesquisador, transformando parte de suas descobertas em textos e projetos literários.
Entre esses projetos está um livro dedicado às raízes italianas de sua família, obra que escreveu e que pretende lançar futuramente.
O livro representa uma etapa importante de seu trabalho: transformar anos de pesquisa em um registro permanente.
“Eu quero deixar isso escrito. Não quero que essas histórias se percam. Se eu descobri algo que passou por várias gerações, quero que as próximas também possam conhecer.”
UMA HISTÓRIA QUE AINDA ESTÁ SENDO ESCRITA
A trajetória de Allan começou com perguntas. Hoje, essas perguntas se transformaram em documentos, pesquisas, livros, correções e histórias recuperadas.
Aos poucos, aquele menino curioso, que desde cedo queria saber o motivo das coisas e perguntava sobre o passado, encontrou na genealogia uma maneira de compreender não apenas seus antepassados, mas também a si próprio.
Sua pesquisa mostra que preservar a memória não significa viver no passado. Significa compreender de onde se veio para que aquilo que foi vivido não desapareça.
E talvez seja justamente essa a característica que melhor define sua trajetória: ele não pesquisa apenas para descobrir quem veio antes. Pesquisa para que essas pessoas continuem tendo uma história.
Entre as salas da universidade, os documentos antigos, as fotografias, os livros e as conversas com familiares, Allan continua sua caminhada.
Ainda existem nomes a investigar, documentos a encontrar, histórias a reconstruir e possíveis erros a esclarecer.
Mas a curiosidade que começou na infância permanece a mesma.
A diferença é que, hoje, ele sabe onde procurar.
Allan Fernando Libonatti Delgado Francisco de Camargo
Pesquisador, estudante de Engenharia Civil e escritor





