Gazeta Itapirense

Há 15 anos, Toninho Bellini queria derrubar o Pontilhão da Fepasa

A recente descaracterização do tradicional Pontilhão da Fepasa, promovida pela Prefeitura de Itapira em março deste ano, reacendeu uma discussão antiga envolvendo a preservação de um dos principais símbolos históricos da cidade. Documentos e fatos do passado mostram que o prefeito Toninho Bellini já defendia, desde 2011, medidas que resultariam na retirada da estrutura.

Na época, Bellini enviou à Câmara Municipal um projeto autorizando a doação da área 2.148 m² da antiga Fepasa para a construção de uma nova sede do Ministério Público. O detalhe que gerou forte reação popular era justamente o fato de o terreno incluir o chamado “Escadão” ou Pontilhão da Fepasa.

O projeto arquitetônico apresentado naquele período não previa a manutenção da passagem histórica, ou seja, haveria a demolição do espaço.

A repercussão foi tão grande que a Câmara Municipal teve que abrir uma consulta pública para ouvir a população. A pesquisa ficou disponível por 30 dias no site do Legislativo e o resultado mostrou rejeição expressiva à proposta: 62,79% dos participantes foram contra a doação da área, enquanto apenas 37,21% se manifestaram favoráveis.

Pontilhão da Fepasa antes de ser descaracterizado pelo prefeito Toninho Bellini (Foto: Câmara dos Vereadores)

Descaracterização em 2026

Quinze anos depois, o espaço voltou ao centro das críticas após intervenção determinada pela Prefeitura.

Em 25 de março de 2026, a administração municipal promoveu o fechamento parcial da base do pontilhão com blocos de concreto, lacrando o vão voltado para a Avenida Rio Branco. Segundo informações obtidas pela reportagem junto a trabalhadores da obra, havia previsão de fechamento também do trecho da Rua Fleming, o que acabou não acontecendo após forte repercussão negativa.

A intervenção gerou revolta nas redes sociais e críticas de moradores, historiadores e defensores do patrimônio histórico, que classificaram a medida como uma descaracterização de um espaço quase centenário.

O Pontilhão da Fepasa foi construído entre 1938 e 1942, durante a gestão do então prefeito Caetano Munhoz, para permitir a travessia segura de pedestres sobre a linha férrea que cortava a cidade. Durante décadas, foi utilizado principalmente por trabalhadores que se deslocavam até a antiga Fábrica de Chapéu Sarkis.

O prefeito-engenheiro resolveu mexer em uma construção quase centenária (Foto: Gilmar Carvalho/Gazeta)

Decreto não inclui o Pontilhão

Outro ponto que passou a gerar preocupação é o conteúdo do Decreto Municipal nº 144, de 19 de setembro de 2025, editado pelo próprio prefeito Toninho Bellini.

Segundo resposta enviada pela Prefeitura ao requerimento do vereador Leandro Sartori, o decreto de proteção patrimonial contempla apenas a edificação da antiga Estação Ferroviária, deixando de fora justamente o Pontilhão da Fepasa — embora ambos integrem o mesmo complexo histórico ferroviário.

A ausência do pontilhão no decreto levantou questionamentos e aumentou o temor de que a estrutura possa, futuramente, ser alvo de novas intervenções ou até mesmo de uma eventual demolição, já que não possui atualmente a mesma proteção formal garantida à estação.

Resposta da Secretaria de Cultura gerou indignação

Após a repercussão da obra ridícula, a Gazeta questionou a Secretaria de Cultura sobre a intervenção. A resposta enviada pelo secretário Ramon Sartorelli também gerou críticas já que ele deveria defender a originalidade do Pontilhão pelo cargo que ocupa, mas fez o contrário.

Segundo ele, o fechamento teria ocorrido a pedido de moradores da região devido à utilização inadequada do local por pessoas em situação de vulnerabilidade, que dormiam no espaço, deixavam resíduos e chegavam a acender fogo sob a estrutura.

Para muitos moradores e defensores do patrimônio histórico, no entanto, a justificativa foi considerada insuficiente diante da importância histórica do pontilhão. Críticos afirmam que medidas de preservação e revitalização poderiam ter sido adotadas sem alterar as características originais do espaço.

Ou seja, ao invés de criar mecanismos ou providenciar ações que evitasse o uso indevido da base do Pontilhão, o prefeito-engenheiro Toninho Bellini decidiu simplesmente descaracterizar o espaço.

O caso continua repercutindo e reforça o debate sobre a preservação da memória ferroviária de Itapira e o futuro de um dos cartões-postais mais conhecidos da cidade.