Gazeta Itapirense

Dono da fazenda Santa Bárbara e banco Comind, Charlô morre aos 98 anos  

A trajetória de Carlos Eduardo Quartim Barbosa se confunde com capítulos marcantes da história do sistema financeiro brasileiro e do desenvolvimento da pecuária nacional ao longo do século XX.

Figura conhecida tanto no meio bancário quanto no agronegócio, ele morreu na última quarta-feira, dia 31, aos 98 anos, deixando um legado que ultrapassa as fronteiras de São Paulo e alcança também Itapira, onde mantinha vínculos históricos.

Conhecido como Charlô, Quartim Barbosa foi um dos principais administradores do Banco do Comércio e Indústria de São Paulo (Comind), instituição que figurou entre os maiores bancos privados do país até a década de 1980. Filho de Teodoro Quartim Barbosa, ex-presidente e um dos maiores acionistas do banco, ele assumiu protagonismo na condução dos negócios após a morte do pai, em 1968, período marcado por intensas disputas internas pelo controle acionário da instituição.

Com a reorganização da gestão, o Comind passou a ser administrado por um consórcio denominado Serviços Técnicos de Administração de Bens Ltda. (Stab), do qual Charlô detinha cerca de 20% das ações, a maior participação individual. A condução do banco, no entanto, foi alvo de embates com outros grandes acionistas, entre eles nomes de peso do cenário empresarial e político nacional, como Paulo Egydio Martins, que viria a governar o Estado de São Paulo, Gastão Vidigal, do Banco Mercantil, e a família Ermírio de Moraes, do grupo Votorantim.

Charlô tinha fortes laços com Itapira (Reprodução)

As disputas societárias e os problemas financeiros culminaram, em 1985, na intervenção federal e posterior liquidação extrajudicial do Comind pelo Banco Central. À época, críticas apontavam a gestão de Charlô como uma das causas da quebra da instituição. Ele, por sua vez, sempre sustentou que o desfecho foi consequência de perseguições e disputas pessoais dentro do grupo controlador.

O Banco Central informou naquele período que o banco apresentava desequilíbrios graves em sua estrutura financeira, atribuídos à concessão de empréstimos de difícil recuperação, além de violações às normas vigentes, o que teria comprometido o patrimônio líquido da instituição. A crise provocou um rombo estimado em Cr$ 6,8 trilhões e levou o Conselho Monetário Nacional a realizar uma reunião emergencial em novembro de 1985, quando foi referendada a liquidação do Comind e de outros grupos empresariais, como Auxiliar e Maisonnave.

Segundo o próprio Banco Central, as dificuldades enfrentadas pelos grupos eram estruturais e as propostas apresentadas para recuperação envolveriam aportes significativos de recursos públicos em condições subsidiadas. Reportagens da época apontam que o governo, em diferentes gestões, chegou a injetar cerca de Cr$ 3,3 trilhões nessas instituições antes do encerramento definitivo das atividades. Anos depois, em depoimento à Justiça Federal, Charlô manifestou sua discordância em relação à liquidação do banco.

Paralelamente à atuação no setor financeiro, Carlos Eduardo Quartim Barbosa construiu uma sólida reputação no agronegócio. Pecuarista, foi um dos responsáveis pela introdução e consolidação da raça bovina Brahman no Brasil, contribuindo para a modernização e expansão da pecuária nacional.

Em Itapira, Charlô também deixou sua marca. Proprietário da Fazenda Santa Bárbara, ele foi responsável pela doação de grande parte da mobília do Hospital Municipal na década de 1990, período em que a unidade foi inaugurada, gesto que até hoje é lembrado pela comunidade local.

O sepultamento de Carlos Eduardo Quartim Barbosa ocorreu no Cemitério da Consolação, em São Paulo, encerrando a trajetória de uma figura que atravessou diferentes fases da economia brasileira e manteve relações significativas com Itapira ao longo de sua vida.