Diocese coloca à venda prédio do “Coleginho”, mas demolição é proibida
A informação de que a Diocese de Amparo colocou à venda o prédio que abrigou o tradicional Colégio Santo Antônio, conhecido por gerações de itapirenses como “Coleginho”, movimentou os bastidores da cidade nos últimos dias e gerou uma onda de especulações sobre o futuro do imóvel.
A repercussão começou após corretores de imóveis procurarem a Secretaria de Planejamento e os cartórios para obter informações sobre a situação do prédio em relação ao processo de preservação histórica. A movimentação rapidamente alimentou rumores de diferentes possibilidades para o local: desde a construção de um prédio residencial, passando pela instalação da sede administrativa de uma indústria, até a implantação de um asilo para idosos.
O imóvel, porém, já possui proteção municipal. O antigo Colégio Santo Antônio integra a lista de 16 imóveis históricos incluídos no Rol de Inventário Municipal por meio do Decreto nº 144/2025, mecanismo que oficializou a preservação de construções consideradas relevantes para a memória coletiva de Itapira, incluindo patrimônios religiosos e ferroviários.
Além disso, o prédio já está em processo de tombamento definitivo pelo Conselho do Patrimônio Histórico de Itapira (COMPHI).

Um símbolo da educação e da assistência social
Muito além de uma antiga escola, o “Coleginho” faz parte da memória afetiva de diversas gerações de itapirenses. O prédio foi inaugurado em 16 de janeiro de 1930 e abrigava as Irmãs Missionárias do Coração de Jesus Crucificado, congregação fundada em Campinas em 1928 por Madre Maria Villac, com apoio de Dom Francisco de Campos Barreto.
A instituição nasceu com uma forte missão social e religiosa. Durante décadas, um dos cenários mais marcantes da rotina local acontecia diariamente por volta das 10h da manhã, quando pessoas se reuniam em frente ao prédio para receber a tradicional sopa distribuída pelas freiras no Dispensário Santo Antônio.

Com o passar do tempo, a sopa foi substituída por cestas básicas, mas o trabalho assistencial continuou sendo referência de acolhimento às famílias mais vulneráveis da cidade. Além da ajuda material, as missionárias realizavam ações de evangelização, oração e apoio espiritual.
O local também serviu de apoio à comunidade católica em um período importante da história religiosa de Itapira. Durante a demolição da antiga Igreja Santo Antônio para construção do novo templo, atividades paroquiais e até missas foram transferidas temporariamente para o colégio.

Paralelamente à atuação social e religiosa, o espaço consolidou sua tradição educacional. O Colégio Santo Antônio tornou-se referência em educação infantil, unindo ensino regular e formação religiosa. Em 1956, passou a se chamar Colégio Oásis Infantil, embora continuasse sendo conhecido popularmente como “Coleginho”.
A instituição chegou a formar três gerações de famílias itapirenses, recebendo filhos, pais e avós ao longo das décadas. Nos últimos anos de funcionamento, também passou a oferecer ensino fundamental.
Em 2014, as atividades educacionais foram encerradas. Alunos, professores e funcionários foram absorvidos por outra instituição de ensino da cidade. Posteriormente, surgiu a proposta de transformar o espaço em um seminário mantido pela Diocese de Amparo para formação de jovens vocacionados ao sacerdócio, mas o projeto não avançou.

COMPHI trata venda como situação urgente
A intenção de venda do imóvel foi oficialmente debatida durante a 1ª Reunião do COMPHI de 2026, realizada no dia 1º de abril na Casa da Cultura.
Segundo a ata da reunião, o historiador e presidente do conselho, Eric Apolinário, destacou a necessidade de análises técnicas especializadas antes da conclusão dos processos de tombamento em andamento na cidade. No entanto, o caso do Colégio Santo Antônio foi apontado como prioritário justamente devido à manifestação de interesse na venda do imóvel pela Diocese de Amparo, proprietária da área.

De acordo com o documento, corretores ligados à negociação procuraram a Secretaria de Cultura e Turismo para obter informações sobre eventual proteção patrimonial e foram informados de que o processo de tombamento já estava em andamento.
Eric Apolinário e o secretário de Cultura, Turismo e Comunicação Social, Ramon Villela Sartoreli, realizaram uma visita técnica ao local e constataram que o prédio principal apresenta bom estado de conservação, apesar de alguns pontos de deterioração causados pelo tempo, especialmente goteiras no telhado.
Durante a reunião, integrantes do conselho defenderam a necessidade de preservar elementos históricos do imóvel para impedir eventual demolição futura.

Segundo a ata da reunião, a engenheira Flávia Zacchi, representante da Secretaria de Planejamento e Obras, informou que também foi procurada por corretores interessados na situação do prédio e sugeriu a preservação integral do edifício principal, com possibilidade de utilização das demais áreas do terreno.
Ao final da reunião, o COMPHI deliberou por unanimidade pela abertura do processo visando à preservação integral do prédio principal do antigo Colégio Santo Antônio.
Prefeitura afirma que prédio está protegido
Em nota oficial, a Prefeitura de Itapira esclareceu que o prédio foi inserido no Inventário Municipal em 2025, etapa inicial do processo de preservação patrimonial.
Segundo a administração municipal, a inclusão no inventário já impede alterações ou demolições sem comunicação prévia ao Conselho do Patrimônio Histórico.
A prefeitura informou ainda que a Diocese de Amparo foi oficialmente notificada em 27 de abril sobre o início do processo de tombamento do imóvel.
“Hoje, com a inserção do edifício no Inventário Municipal e início do processo de tombamento, esse prédio está protegido de demolição”, informou a nota.
A administração municipal ressaltou, entretanto, que a venda do terreno não está impedida, desde que não exista intenção de demolir o prédio histórico.
Com isso, o futuro do antigo “Coleginho” segue indefinido, mas cercado por uma certeza: qualquer novo projeto para o espaço deverá respeitar o valor histórico, arquitetônico e afetivo de um dos imóveis mais tradicionais de Itapira.
Nossa reportagem enviou algumas perguntas ao departamento de comunicação da Diocese de Amparo mas, até a publicação desta matéria, não obtivemos retorno.






