De indispensáveis a esquecidos: a lenta despedida dos orelhões das ruas itapirenses
Para quem cresceu antes da popularização dos celulares, o orelhão foi sinônimo de comunicação, emergência e até ponto de encontro. Instalados em praças, ruas movimentadas e bairros afastados, os antigos Telefones de Uso Público marcaram gerações. Hoje, porém, eles caminham para desaparecer quase por completo do cenário urbano brasileiro.
A mudança ocorre após o encerramento, em dezembro de 2025, das concessões do serviço de telefonia fixa das cinco empresas responsáveis pela manutenção desses equipamentos. Com a adaptação dos contratos do Serviço Telefônico Fixo Comutado para o regime de autorização, previsto na Lei Geral de Telecomunicações, as operadoras deixaram de ter obrigação legal de manter os orelhões em funcionamento.
Dados da Agência Nacional de Telecomunicações indicam que cerca de 38 mil orelhões ainda permanecem espalhados pelo país, embora muitos já estejam desativados ou em manutenção. Não há, atualmente, uma norma específica que regulamente a retirada desses aparelhos, mas a Anatel estuda solicitar às empresas um plano formal para remoção dos terminais considerados não obrigatórios.

Mesmo em processo de extinção, os orelhões ainda resistem em locais onde a cobertura de telefonia móvel é considerada insuficiente. Aproximadamente nove mil aparelhos deverão ser mantidos até 31 de dezembro de 2028 nessas regiões. Nesses casos, as ligações locais e nacionais para telefones fixos devem ser gratuitas, já que os antigos cartões telefônicos deixaram de ser viáveis economicamente.
São Paulo lidera o ranking de orelhões ativos no país, seguido por Bahia e Maranhão. Para a Anatel, a redução drástica desses equipamentos simboliza o sucesso da expansão das redes móveis e da fibra óptica, impulsionada por investimentos das operadoras em infraestrutura, conectividade em escolas, ampliação do sinal 4G e implantação de data centers.
Em Itapira, a presença dos orelhões também se tornou rara e, para muitos jovens, trata-se de um objeto praticamente desconhecido. Se antes em qualquer esquina da cidade tinha um, hoje são apenas 63 unidades em pontos estratégicos, como a Praça Bernardino de Campos e a rodoviária, por exemplo.
Para quem viveu a época em que eles eram essenciais, o sentimento é de nostalgia. É o caso de Fran que relembra com carinho o período em que o orelhão era o principal meio de comunicação.
“Eu usei muito orelhão antigamente. Era o único meio de comunicação na minha época, fazia parte da rotina”, conta. Segundo ela, os aparelhos eram tão importantes quanto os celulares são hoje. “Era imprescindível ter orelhão nas cidades, nas praças, em todo lugar”, relembra.
Fran também recorda a transição das fichas metálicas para os cartões telefônicos, mas confessa preferência pelo modelo mais antigo. “Eu sou mais das antigas, gostava da ficha. Falei muito com ficha”, diz, sorrindo. Natural de Santa Rita do Sapucaí, em Minas Gerais, ela destaca que o hábito era comum em várias cidades da região.
Enquanto os orelhões se tornam cada vez mais raros, a lembrança deles segue viva na memória de quem precisou esperar na fila, contar moedas ou fichas e torcer para a ligação não cair. Um símbolo de outra era da comunicação que, aos poucos, vai ficando restrito às histórias e lembranças de quem viveu esse tempo.



