Gazeta Itapirense

Com o SAAE destruído, o ‘gênio’ Bellini vai torrar R$ 33 milhões em captação de água  

A Prefeitura de Itapira homologou a contratação da empresa responsável pela construção da nova estação de captação de água no Rio do Peixe, uma obra orçada em aproximadamente R$ 33 milhões e que se transformou em uma das principais bandeiras da administração do prefeito Toninho Bellini (PSD).

O projeto prevê a implantação de uma nova estrutura de captação, uma adutora com cerca de 7,7 quilômetros de extensão e capacidade para transportar até 430 litros de água por segundo até a Estação de Tratamento de Água (ETA) do município. A empresa vencedora da licitação apresentou proposta de cerca de R$ 33 milhões, valor ligeiramente inferior ao orçamento inicial previsto pela Prefeitura.

Embora o governo municipal apresente a obra como um investimento estratégico para o futuro do abastecimento, a decisão levanta questionamentos cada vez maiores entre moradores e especialistas que acompanham a realidade do sistema de água da cidade.

A principal pergunta feita por muitos itapirenses é simples: por que investir R$ 33 milhões em uma nova captação enquanto o sistema atual perde água diariamente por vazamentos espalhados por praticamente todos os bairros?

Ao longo dos últimos meses, a reportagem da Gazeta tem mostrado dezenas de casos de rompimentos de redes, afundamentos de asfalto, erosões, crateras e desperdício contínuo de água tratada em diversos pontos da cidade. Em algumas situações, os vazamentos permanecem por semanas ou até meses aguardando reparos.

O problema não está na falta de água bruta. O Ribeirão da Penha abastece Itapira há mais de dois séculos e jamais deixou a cidade sem abastecimento por incapacidade de produção. O que a população presencia diariamente é outra realidade: uma rede envelhecida, manutenção insuficiente e um SAAE que enfrenta dificuldades operacionais cada vez mais evidentes.

Enquanto milhões de litros de água tratada são desperdiçados anualmente em vazamentos, a Prefeitura opta por investir uma quantia equivalente ao orçamento de grandes obras de infraestrutura em um sistema adicional de captação.

A situação se torna ainda mais controversa quando analisada sob a ótica financeira.

Há poucos dias, transitou em julgado uma decisão judicial relacionada à longa disputa entre a Prefeitura de Itapira e a Sabesp. O município foi condenado a arcar com uma obrigação financeira estimada em cerca de R$ 88 milhões, resultado de uma batalha judicial que se arrasta há mais de duas décadas.

O caso remonta ao início dos anos 2000, quando a recuperação do SAAE foi utilizada como uma das principais bandeiras políticas da primeira eleição de Toninho Bellini para a Prefeitura. Na época, a dívida discutida girava em torno de R$ 14 milhões. Mais de vinte anos depois, com juros, correções e sucessivas disputas judiciais, a conta alcançou valores milionários que agora recaem sobre os cofres públicos.

Mesmo diante desse cenário, a administração municipal vai torrar R$ 33 milhões sem que tenha apresentado publicamente um plano detalhado para resolver os problemas estruturais que afetam diariamente o abastecimento da cidade.

Moradores questionam se o recurso não teria aplicação mais urgente na recuperação da própria rede existente. A modernização de tubulações antigas, a substituição de trechos críticos, a compra de equipamentos, a renovação da frota operacional e a contratação de mão de obra especializada poderiam representar impactos imediatos na redução das perdas de água e na melhoria dos serviços prestados à população.

Outro ponto que gera críticas é a situação operacional do próprio SAAE. Servidores e usuários relatam dificuldades constantes relacionadas à manutenção de equipamentos, demora em reparos e limitações estruturais da autarquia.

Na prática, a percepção de parte da população é de que o município pretende captar mais água antes mesmo de resolver o problema da água que já possui e que continua sendo desperdiçada diariamente pelas ruas da cidade.

A discussão não é sobre a necessidade futura de ampliar a capacidade de abastecimento de Itapira. O debate gira em torno das prioridades.

Para muitos moradores, antes de construir uma nova adutora milionária, seria mais lógico recuperar um sistema que hoje sofre com vazamentos frequentes, buracos recorrentes, desperdício de água tratada e crescente insatisfação popular.

Enquanto a obra é apresentada como símbolo de modernização, a realidade encontrada nas ruas continua sendo marcada por canos rompidos, asfalto afundando e reclamações que se acumulam em todas as regiões do município.