Gazeta Itapirense

Artigo: Um silêncio que grita, por Guilherme Reis

Yulia observava Boris com olhos arregalados, tentando entender o peso das palavras dele. O silêncio ao redor parecia mais denso agora, como se a própria sala estivesse conspirando contra eles.

— Quem são eles? — perguntou, tentando soar curiosa, mas a tremedeira na voz a traiu.

Boris olhou para ela, os olhos fundos e cansados, como se carregasse um fardo invisível há muito tempo.

— Eles? Você diz os silenciosos?

— Exato — respondeu Yulia, tentando parecer firme.

Boris suspirou, passando a mão pelo rosto.

— Eu não sei. Eles são silenciosos como mil alarmes antiaéreos. Nos observam em cima dos guarda-roupas, debaixo das mesas, atrás das portas. Eles estão nos nossos pesadelos, nos nossos sonhos, nos nossos pensamentos… droga… eles estão em todos os lugares.

Yulia engoliu em seco, sentindo um calafrio percorrer sua espinha.

— E o que eles querem? Por que fazem isso? — perguntou, quase num sussurro.

Boris hesitou, como se responder fosse perigoso demais. Finalmente, ele disse:

— Eles não querem nada além de nos destruir. Mas não como você imagina. Eles não precisam nos tocar, Yulia. Eles nos matam psicologicamente, pouco a pouco. Eles entram nos nossos pensamentos, nos nossos medos mais profundos, e nos fazem sofrer de dentro para fora. É um sofrimento que parece eterno.

— Como assim? — perguntou Yulia, incapaz de esconder o pânico.

— Eles plantam dúvidas, medo, desespero. Você começa a duvidar de si mesma. Eles te observam, sempre, mesmo quando você acha que está sozinho. E quando você finalmente percebe que eles estão ali… já é tarde demais. Eles quebram você. E, no final, você nem sabe mais quem era.

O ar na sala ficou mais frio. Yulia olhou para o canto do quarto e viu algo que a fez prender a respiração: uma sombra que não deveria estar lá. Ela parecia se mover, mesmo sem um corpo.

— Boris… — começou ela, mas ele a interrompeu.

— Não olhe! — gritou ele, desesperado. — Não importa o que veja ou sinta, feche os olhos, Yulia. Agora!

Ela obedeceu, mas a sensação de ser observada ficou ainda mais intensa. Era como se algo invisível estivesse pressionando sua mente, sufocando-a. Uma risada abafada ecoou pela sala, e Yulia sentiu uma dor aguda em sua cabeça, como se algo estivesse tentando entrar em seus pensamentos.

“Você nunca vai escapar. Você nunca vai ser livre.”

A voz era doce e cruel ao mesmo tempo, arrastando Yulia para um abismo de medo e dúvida. Ela pressionou os olhos com força, tentando resistir.

— Boris! O que fazemos? — gritou ela, a voz carregada de pânico.

Boris segurava a faca com força, mas não olhava para ela. Ele estava encarando algo na escuridão, algo que parecia ter o controle de tudo.

— Apenas resista, Yulia! Não se entregue! É isso que eles querem. Não deixe que eles tomem você!

Mas a risada ficou mais alta, transformando-se em um coro de vozes. Cada uma delas parecia sussurrar algo diferente, mas todas carregavam a mesma mensagem cruel: sofrimento. Yulia sentiu sua força se esvaindo, como se estivesse sendo drenada.

 

E então, a única coisa que restou foi o silêncio. Um silêncio que gritava mais alto do que qualquer som.

 

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Este texto foi escrito por Guilherme Reis, um autor itapirense que gosta de explorar temas variados em sua escrita, desde o amor até a ficção científica, sempre com um toque criativo e reflexivo.

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