Artigo: O que esperar de um prefeito que foge das baratas?
O “Escândalo das Baratas’ na cozinha do Hospital Municipal de Itapira produziu imagens que dificilmente serão esquecidas pela população. Tudo começou após matéria exclusiva da Gazeta no fim da tarde de terça-feira, 26, e se tornou assunto da semana em toda a região.
Baratas caminhando sobre fogões industriais enquanto refeições eram preparadas para pacientes, acompanhantes e funcionários não representam apenas um problema sanitário. Representam uma crise de gestão.
Mas tão grave quanto as imagens foi a reação — ou melhor, a falta dela.
Em qualquer administração que compreenda o significado da palavra liderança, a primeira atitude diante de uma denúncia dessa magnitude seria simples: o prefeito compareceria pessoalmente ao local, verificaria a situação, conversaria com servidores, prestaria esclarecimentos à população e anunciaria medidas concretas para resolver o problema.
Nada disso aconteceu.
Passada uma semana desde que o caso veio à tona, o prefeito Toninho Bellini não deu uma única declaração pública sobre o episódio. Não gravou vídeo. Não convocou entrevista. Não visitou publicamente o hospital. Não falou nas redes sociais. Não apresentou explicações diretas à população.
Uma de suas últimas postagens é a montagem onde ele aparece como figurinha do álbum de futebol da Copa do Mundo.
Mas no ‘Escândalo das Baratas’ o silêncio virou protagonista.
Enquanto a cidade discutia as imagens, enquanto pacientes e familiares questionavam as condições sanitárias da principal unidade de saúde do município, a principal autoridade administrativa da cidade simplesmente desapareceu do debate público.
Quando finalmente surgiu uma manifestação oficial, ela veio por meio de uma nota divulgada dois dias após o escândalo ganhar repercussão. E nem mesmo essa nota conseguiu responder à principal pergunta que a população fazia.
Havia ou não havia infestação de baratas na cozinha?
A resposta deveria ser objetiva. Sim ou não.
A nota preparada pelo ‘super-secretário’ de Cultura, Turismo e Comunicação Ramon Sartorelli foi uma afronta à verdade e um tapa na cara dos itapirenses.
A nota preferiu percorrer um caminho tortuoso, falando sobre contratos de dedetização, cronogramas, empresas terceirizadas e futuras reformas, sem admitir de forma clara aquilo que as imagens mostravam de maneira incontestável.
A consequência foi óbvia: em vez de encerrar a crise, a nota aumentou a desconfiança.
No mesmo dia da nota, a secretária de Saúde, Dra. Sueli Longhi foi até uma audiência pública na Câmara dos Vereadores. Questionada pelo vereador Tiago Fontolan sobre a veracidade da gravação, a respeitada médica usou o cinismo como resposta: “não vou dizer que sim, nem que não”.
Ela sabia desde a divulgação da matéria da Gazeta, dois dias antes, que a infestação havia ocorrido. Mas foi outra que deu um tapa na cara dos itapirenses. Se fosse um governo sério, não estaria mais à frente da Secretaria de Saúde, mas em se tratando do acomodado Toninho Bellini, não dá pra esperar muita coisa.
Dra. Sueli ainda tratou a notícia da Gazeta como “sensacionalismo” e “terrorismo”. Seria melhor para a senhora que ficássemos quietos né doutora, que não tivéssemos publicado o vídeo e duas horas depois outra filmagem mostrando o carro da empresa dedetizadora atuando no HM às pressas?
Terrorismo é deixar a cozinha chegar onde chegou.

No dia seguinte os vereadores da oposição visitaram o hospital e ouviram relatos das próprias funcionárias da cozinha confirmando a presença recorrente das baratas e descrevendo dificuldades enfrentadas no ambiente de trabalho.
Ou seja, aquilo que a administração Toninho Bellini parecia relutar em admitir acabou sendo confirmado por quem vive a realidade do setor diariamente.
O episódio revela um problema que vai muito além dos insetos encontrados na cozinha.
Revela uma administração que parece ter perdido a capacidade de enfrentar crises de frente.
A transparência exige coragem.
Coragem para reconhecer erros.
Coragem para admitir falhas.
Coragem para prestar contas à população.
Coragem para olhar nos olhos do cidadão e dizer exatamente o que aconteceu.
Quando uma administração prefere o silêncio à explicação, a nota confusa à clareza e a reação tardia à ação imediata, ela acaba alimentando exatamente aquilo que mais deveria combater: a falta de confiança.
O Hospital Municipal já vinha acumulando denúncias de infiltrações, mofo, goteiras, problemas estruturais e desativação de leitos. O caso das baratas apenas tornou visível algo que muitos já denunciavam havia meses: a sensação de abandono.
E diante de um escândalo sanitário que abalou a cidade, a população esperava encontrar um prefeito liderando a resposta.
Encontrou apenas silêncio.
Porque, no fim das contas, o problema nunca foi apenas a presença das baratas.
O problema é a ausência de quem deveria estar enfrentando o problema.




