Pular para o conteúdo principal

Gazeta Itapirense

Alcoolismo – Mulheres de alcoólatras desafiam o impossível

Mulheres de maridos alcoólatras são co-dependentes. Adoecem juntas ao martírio de ver alguém no declínio da vida, mas desafiam o impossível de tentar recuperar seus homens e resgatar a própria dignidade e o matrimônio, carcomidos por dentro por se deparar com o amado à soleira de casa, sujo, entregue ao vício e à dependência química.

Muitas preferem deixar o marido alcoólatra beber em casa a ir ao bar, mas desabam na impotência de ver a estrutura familiar falida.
As mais pobres não tem muito a quem recorrer. Deixam que aconteçam simplesmente nos quadrantes da casa. São vítimas da tirania financeira e na maior parte das vezes agredidas fisicamente.

E. N., de 38 anos, foi encontrada pela reportagem correndo pelas ruas do Centro atrás do marido. Queria levá-lo para um hospital psiquiátrico da cidade para passar por uma consulta já marcada. Não consegui e se quedou na via pública.

“Ele estava bem, mas voltou a beber”, confidenciou a mulher com lágrimas grossas e cálidas a rolarem dos olhos tristes. “Agora chega fedido e sujo em casa, sem dar atenção aos três filhos”, relatou a moça, uma faxineira de profissão, anjo caído à espera de um milagre.
Dependente do álcool, há três anos o marido de E.N. não bebia mais e dava mostras de uma nova vida. De repente, se entregou e passou a varar dias e noites nos bares, quando então retornava para casa para tomar banho, comer algo e pegar uma graninha e logo zarpar para a rua de novo.

Para a auxiliar administrativa R.P.O., de 62 anos, o martírio de conviver com alguém que coloca o vício em álcool à frente da família durou longos 14 anos: “no começo do namoro ele bebia muito socialmente e na maioria das vezes na presença da família, mas odiava bar. Chegou a dizer pra mim e para as nossas duas filhas que “bar não é lugar de pai de família”. Os anos passaram, veio o casamento e depois de um tempo uma filha foi estudar fora e ele conheceu um amigo na firma que trabalhava. Começou bebendo na casa dessa ‘desgraça’ que acabou com nossas vidas e depois foi parar em um bar, onde fez novas amizades. Ali foi o começo do fim de nossa família. Passou a torrar dinheiro com cachaça mesmo, nem cerveja era. No meio dessa bagunça toda conheceu e gostou da cocaína”, detalhou a mulher.

Com um misto de desânimo e alívio, R.P.O. contou como o casamento de quase 40 anos teve fim: “meu marido chegou ao ponto de um dia, em casa, tentar agarrar a irmã da namorada do meu filho. Ele estava doido de pó, bêbado e com cheiro de mendigo, sujo mesmo. Foi em cima da moça enquanto ela esperava a irmã e meu filho voltarem pra casa, ele tinha ido na padaria. Foi a gota d’água, não suportava mais. Eu tinha engordado quase 30 quilos porque não tinha vontade nem de fazer uma caminhada mais, como como uma doida e não queira botar a cara na rua. Depois que ele foi embora, comecei a viver de novo, me sentir mulher e ser feliz, coisas simples, mas que não sentia há anos. A bebida e a falta de juízo dele acabaram com meu casamento e quase me mataram, mas no fim deu tudo certo”, finalizou.

Para entender um pouco mais sobre o delicado tema, entrevistamos o psicólogo José Antônio Zago, coordenador de longa data do CAPSad “Raineri Baiochi” (Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas) e referência no tema. Ele atua na reabilitação e reinserção social de pacientes, liderando iniciativas importantes em Itapira

Confira abaixo: 

“A bebida alcoólica atravessa a história humana desde os seus primórdios. A bebida alcoólica possibilita a problemática da ambiguidade. Ela pode ser utilizada para celebrar momentos importantes e felizes da vida e, ao mesmo tempo, ser fonte de desavenças, violências e desorganizações entre pessoas. O difícil é estabelecer para cada pessoa o limite do beber seguro ou recreacional do limite do beber problemático. Não sabemos essa fronteira. Ela aparece quando a pessoa começa a experimentar as primeiras doses de bebida, e isso ainda na adolescência, apesar de ser proibido o uso para menores. Um pai ou uma mãe não sentaria com um filho ou filha adolescente para fumar maconha ou cheirar uma carreira de cocaína. Mas, não é improvável que sentariam, sem qualquer culpa ou responsabilidade, com a filha ou filho adolescente para tomar uma cerveja ou brindar um acontecimento familiar importante. E se o corpo adolescente se sentir bem ou prazeroso com essa experiência?

Jovens casais de namorados sonham com um futuro melhor, construído a quatro mãos ou a dois corações. Não é raro já na época de namoro a jovem já perceber que seu companheiro faz uso excessivo de bebida alcoólica. Mas, a esperança quase certa que depois com o tempo irá se acalmar, faz o relacionamento seguir em frente.  Muitos vínculos tecidos entre pares podem ter sido facilitados pelo o uso de bebida alcoólica. Ainda observamos mulheres que abominam bebida e permanecem de forma fiel com o companheiro usuário de bebida alcoólica. Hoje, as jovens mulheres estão adotando os mesmos comportamentos dos jovens. Frequentam bares, botecos e ambientes onde a bebida alcoólica é o fio condutor das relações.

Na vida a dois a princípio tudo corre nos conformes. Mas, o fato do companheiro chegar mais tarde em casa porque a parada no bar após o trabalho passou ser rotina, pode pouco a pouco ir minando o relacionamento. A parada quase diária no boteco significa que no final do mês uma parcela do orçamente familiar ficou pelo caminho, frustrando planos ou reduzindo o cardápio da mesa. Questões, antes inocentemente compreendidas ou relevadas, passam ter importância. A convivência com quem bebe é difícil. Onde entra a bebida alcoólica, embota a possibilidade de cooperação, que é fundamental na relação a dois. Pior se já tiver filhos, que passa a ver modelos conflituosos e ambivalentes. O pai sóbrio é trabalhador, sério, etc.; o pai alcoolizado ou é permissivo ou hostil. É nesse contexto que surge cobranças incisivas. Inicialmente com a alteração do tom das palavras. Depois, as discussões, as ameaças e por fim até as agressões físicas. A mulher na maioria das vezes suporta esse sofrimento. Nós vivemos em uma sociedade que a aparência tem uma importância que muitas vezes pode nos levar ao adoecimento. Como manifestar na sociedade que convivo com um homem que bebe além das contas, é agressivo, etc. Como explicar isso para a família constituída, amigos. Como acabar com tudo se paira o temor da insegurança?

Muitas vezes o que está em jogo em um relacionamento é a questão do controle. Culturalmente o homem se considera quem deve ter o controle. O álcool tira o controle, o que é manifesto por atitudes agressivas como forma de não perdê-lo. Outras vezes essa tentativa de manter o controle é pela ideia delirante que a mulher está traindo, ou tem outro homem. Uma mera e doentia projeção de suas fraquezas para justificar a impotência sexual causada pelo excesso de bebida. Há muito sofrimento gerado por essa projeção, às vezes com consequências fatais.

Mas a mulher, para justificar inconscientemente a mais profunda essência da alma feminina não abandona. Cuida. Esquece-se de si. Deixa de se cuidar para cuidar do companheiro. Não raramente se anula como pessoa fazendo de tudo na esperança reverter a situação. Começa a assumir tudo em casa e fora dela, aumentando a responsabilidade, com os filhos inclusive. Vê-se sozinha cuidando da casa, filhos, trabalho e do marido problemático devido o álcool. Procura proteger a aparência de um “lar feliz” ou do casal perfeito. Com isso sofre em silêncio, internamente com baixa autoestima, com vergonha às vezes por minimizar uma problemática tão grave, muitas vezes para evitar o julgamento ou vergonha. Como consequência isso significa um sofrimento emocional e físico que pode levar à exaustação e ao adoecimento. Se a bebida alcoólica é a substância de dependência do companheiro, o comportamento deste passa ser o objeto de dependência da companheira. Essa codependência leva a mulher a abandonar a si, e às vezes os filhos, para dedicar-se à recuperação do companheiro. Essa codependência fica mais patente quando ocorrem as ameaças frequentes de abandono, mas sem a prática. Forma-se um círculo vicioso: frente à ameaça o companheiro promete limite ou deixar o uso de bebida, que enche a mulher de esperança. Mas assim que o companheiro quebra a promessa, o sentimento que invade a companheira é de muita raiva que proporciona intensas discussões e exposições de fragilidades. Passado o calor e baixada a raiva, a mulher começa a sentir-se culpada, pensando que exagerou em sua cobrança. E para aliviar a culpa, passa a mão na cabeça do companheiro que novamente promete deixar a bebida, ou seja, reinicia-se o círculo vicioso.

Tudo isso caracteriza a família como disfuncional. Um ambiente familiar onde a mãe exausta assume a posição de salvadora, carregando a angústia de uma existência química não assumida pelo companheiro. E cada vez que não dá conta do problema, se responsabiliza mais ainda com sentimentos de culpa, a ponto de considerar que ela é o centro do problema por não chegar a uma solução. Muitas vezes isso é contornado não com solução, mas com dissolução, ou seja, a separação agregada com todo o sofrimento que acarreta aos membros familiares, com maior carga para os membros mais frágeis que são os filhos. Como haver amorosidade e empatia nesse ambiente familiar para nutrir afetivamente de forma positiva os filhos que estão crescendo? Não é o amor que sustenta um relacionamento, mas a consideração e o respeito quem sustentam o amor e, por conseguinte o relacionamento. O respeito dos filhos para com os pais resulta de perceberem nas figuras parentais pessoas capazes de serem amorosos, porém, ao mesmo tempo, serem capazes de por limites.

Famílias disfuncionais possibilitam filhos vulneráveis, ainda mais onde a figura paterna é extremamente frágil. A prática clínica mostra que adolescentes envolvidos em uso ou tráfico de drogas provêm de famílias onde a figura do pai é emocionalmente ou fisicamente ausente.

A sociedade, e infelizmente muitos setores da saúde, ainda não entenderam que o alcoolismo é uma doença mental e de comportamento grave e progressiva, e como tal deve ser tratada. Além de grave tem uma característica que outras doenças físicas não têm: ela é fator de adoecimento de outros membros da família.

Os Centros de Atenção Psicossocial para tratamento de álcool, tabaco e outras drogas (CAPSad) do Sistema Único de Saúde (SUS) estão aparelhados e capacitados para tratar os problemas decorrentes do uso, abuso e dependência de álcool. Ainda, possibilita o atendimento de famílias que têm um membro com o problema. Tanto a pessoa que está dependente de álcool quanto a família requerem ajuda especializada, para que as família possa se reorganizar e conviver de forma mais positiva, para que cada um possa manter sua autonomia e saúde mental no grupo familiar, especialmente para a mulher codependente. Muitas vezes o membro familiar que tem o problema se nega a aceitar ou buscar ajuda especializada. Isso, no entanto, não impede que a esposa ou companheira procure este serviço de saúde. Isso pode ajudá-la a entender o problema como uma doença e ser orientada a adotar posições que contribuem mais com a recuperação e menos com o adoecimento de todo o grupo familiar, bem como ser orientada de maneira a trabalhar melhor com o companheiro o despertar para a mudança.

Em Itapira dispomos do Centro de Atenção Psicossocial “Raineri Baiochi” da Secretaria Municipal de Saúde que possui equipe de Saúde Mental especializada no tratamento do alcoolismo. Está aberto de segudna a sexta-feira das 8 ás 17 horas, situado `Rua Américo Boretti S/N no Bairro Nosso Teto.”