A não escolha: o fardo invisível das mulheres, por Hellen Santos
Traço Feminino
Um espaço acolhedor que trará de forma acessível assuntos necessários como direitos das mulheres, a luta das mulheres negras, a violência contra a mulher e o que fazer nessas situações, dentre outros temas relacionados à mulher.
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A não escolha: o fardo invisível das mulheres
Dizem que atualmente as mulheres podem tudo. Que conquistamos o mercado de trabalho, o direito ao voto, à voz, ao corpo, à liberdade. Que já não somos mais prisioneiras de um tempo em que o silêncio era o único abrigo possível. Mas, no cotidiano real, muitas de nós ainda vivem sob o peso da não escolha, uma prisão muito mais sutil, porém igualmente cruel.
Não escolher não é indecisão. É não ter alternativa. É ser empurrada pelas circunstâncias, pela dependência econômica, pela falta de oportunidades, pela culpa. É carregar o medo constante do julgamento, de não ser boa o bastante, de errar e ser condenada por isso. E quando a mulher ousa escolher, se divorciar, dizer não, mudar de carreira, decidir não ser mãe, a reação social é imediata e implacável.
O caso mais recente da mulher que, viu o marido reagir com a barbárie de assassinar os próprios filhos, ao supor uma traição, o que jamais seria motivo para tamanha atrocidade, é o retrato de uma sociedade adoecida, em que a autonomia feminina ainda é tratada como ameaça. Em seguida, ela foi apedrejada nas redes sociais, como se o simples ato de querer viver diferente fosse culpa sua. Onde está, afinal, a escolha das mulheres?
Se isso já é devastador, o peso é ainda mais brutal para as mulheres negras. Porque além do machismo, há o racismo. São elas que sustentam lares sozinhas, com salários mais baixos, nas profissões mais precarizadas. E mesmo assim, raramente o debate sobre exaustão feminina as inclui. O feminismo que ganha manchetes ainda é, muitas vezes, um feminismo branco, que ignora o corpo negro como o primeiro a ser explorado e o último a ser ouvido.
Vivemos em um mundo que cria tecnologias capazes de nos conectar ao outro lado do planeta, mas que ainda não consegue resolver o básico: o direito de uma mulher existir sem medo. As máquinas avançam, mas a empatia regride. As redes sociais, que poderiam ser espaços de acolhimento, se tornaram arenas de apedrejamento público.
Enquanto isso, os homens continuam a se mover com a naturalidade de quem tem o direito ao erro. Eles podem recomeçar quantas vezes quiserem, sem serem rotulados de instáveis, ingratos ou irresponsáveis. Podem errar, falhar, decidir, mudar. A sociedade os acolhe no tropeço. Às mulheres, cobra-se perfeição e, se falham, a punição é rápida e cruel. Não se trata de ser melhor do que eles. Trata-se apenas de poder existir como eles: com o direito de escolher, de errar, de recomeçar e, sobretudo, de viver.
Porque o que está em jogo não é apenas o protagonismo feminino. É a humanidade.
E enquanto a mulher ainda precisar morrer para provar que tinha razão, nenhuma de nós será, de fato, livre.
“Muitas mulheres não vivem o que querem, vivem o que sobrou.”

Por: Hellen Santos





