O que a engenharia tem a ver com política?, por Vinícius Marchese
O que uma enchente, um ônibus que demora duas horas para atravessar a cidade, uma comunidade sem saneamento e uma estrada congestionada têm em comum?
São problemas que sentimos no cotidiano, mas cujas soluções começam muito antes da obra pronta. Começam na capacidade de diagnosticar, planejar, projetar e decidir. São casos concretos de porque a engenharia tem muito a ver com política.
A política determina prioridades. Decide onde o poder público deve investir, quais demandas enfrentar primeiro e que modelo de cidade, infraestrutura e desenvolvimento uma liderança pretende construir. A engenharia trabalha para transformar parte dessas escolhas em soluções viáveis, seguras e duradouras.
Parece uma relação óbvia, mas o Brasil ainda sofre com a distância entre essas duas dimensões.
Ao longo da minha trajetória profissional, conheci municípios de diferentes tamanhos e realidades. E aprendi que nem sempre o principal obstáculo é a inexistência de recursos. Muitas vezes, o dinheiro existe, mas falta projeto. Em outras, existe uma boa ideia, mas ela não foi estruturada tecnicamente para se tornar um investimento concreto. Há ainda situações em que a obra acontece sem o planejamento necessário, e o problema reaparece alguns anos depois, afetando a vida de todos os cidadãos.
Essa distância custa caro.
Custa quando uma obra precisa ser refeita. Custa também quando um município perde a oportunidade de acessar recursos porque não possui um projeto adequado ou quando uma cidade cresce sem planejar sua mobilidade. Pior ainda, quando se investe para reparar os danos de uma enchente sem preparar a infraestrutura para a próxima.
Talvez um dos maiores desafios do poder público brasileiro seja justamente recuperar sua capacidade de planejar.
Isso se torna ainda mais importante diante dos problemas que teremos de enfrentar nas próximas décadas. Universalizar o saneamento, modernizar a infraestrutura, melhorar a mobilidade, ampliar a conectividade, adaptar as cidades às mudanças climáticas e incorporar novas tecnologias à gestão pública não são tarefas que se resolvem com medidas isoladas ou respostas de curto prazo.
Exigem continuidade, conhecimento e visão de futuro.
As mudanças climáticas tornam essa necessidade particularmente evidente. Depois de uma tempestade, é necessário reconstruir pontes, recuperar vias e atender a população atingida. Mas uma cidade preparada precisa fazer algo mais difícil: agir antes da emergência surgir.
Isso significa conhecer as áreas de risco, dimensionar os sistemas de drenagem, planejar a ocupação urbana, revisar as infraestruturas e antecipar cenários. Prevenção não produz necessariamente uma imagem tão impactante quanto uma obra inaugurada, mas frequentemente economiza recursos e, o mais importante, protege vidas.
O mesmo vale para mobilidade, saneamento, habitação, energia ou conectividade. Uma cidade não funciona por partes. Cada decisão interfere nas outras. É por isso que planejamento não pode ser tratado como burocracia. Planejar é decidir hoje como queremos viver amanhã.
Nada disso significa substituir a política pela técnica pura. Uma planilha não escolhe as prioridades de uma sociedade. Um cálculo não decide sozinho onde o recurso público deve ser investido. Essas são escolhas políticas, que precisam considerar representação, desigualdades, demandas sociais e interesses coletivos.
A técnica não substitui a política. Ela pode qualificá-la. E talvez esteja aí uma discussão que o Brasil precise fazer com mais atenção. Se uma parcela crescente das grandes decisões públicas envolve infraestrutura, cidades, energia, conectividade, tecnologia e adaptação climática, precisamos também ampliar a presença de pessoas que conheçam essas questões nos espaços em que prioridades e recursos são definidos.
Não porque os engenheiros tenham todas as respostas. Eles não têm. Mas porque a experiência de trabalhar com problemas concretos ensina algo importante: entre identificar uma necessidade e entregar uma solução existe um percurso que exige método, responsabilidade e capacidade de execução.
Foi percorrendo São Paulo por meio da engenharia que passei a enxergar esse desafio com mais clareza. A partir de minha experiência à frente do sistema Confea/Crea, conheci municípios grandes e pequenos, conversei com profissionais e gestores e vi situações muito diferentes entre si. Em muitas delas, porém, encontrei a mesma dificuldade para fazer a ponte entre a necessidade da população, o projeto tecnicamente viável, o recurso disponível e a decisão pública.
É nessa ponte que acredito poder contribuir.
Minha pretensão de representar São Paulo parte também dessa experiência. Quero levar para a política não a ideia de que a engenharia resolve tudo, mas algo que ela me ensinou durante toda a vida profissional. Problemas complexos precisam ser compreendidos antes de serem enfrentados, soluções precisam ser planejadas antes de serem executadas e resultados precisam ser medidos depois de entregues.
Boa intenção é indispensável na vida pública. Mas não basta. Boa intenção não sustenta uma ponte, não universaliza o saneamento, não reduz o tempo perdido no transporte e não prepara uma cidade para a próxima tempestade. Para transformar intenção em resultado são necessários planejamento, projeto, recursos e execução.
É nisso que engenharia e política se encontram. Uma ajuda a construir soluções. A outra tem o poder de transformá-las em prioridade coletiva. Quando as duas funcionam bem, quem percebe a diferença é a população.

Vinicius Marchese, é candidato a deputado federal por São Paulo, é engenheiro de Telecomunicações, presidente licenciado do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) e doutorando em Cidades Inteligentes e Sustentáveis.






