Quando a escala muda, mas a vida das mulheres continua 7×0, por Hellen Santos
Traço Feminino
Um espaço acolhedor que trará de forma acessível assuntos necessários como direitos das mulheres, a luta das mulheres negras, a violência contra a mulher e o que fazer nessas situações, dentre outros temas relacionados à mulher.
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Quando a escala muda, mas a vida das mulheres continua 7×0
A comemoração pela redução da jornada de trabalho e pela adoção de escalas mais humanas é legítima. Durante décadas, trabalhadores e trabalhadoras reivindicaram mais tempo para viver, descansar, conviver com a família e cuidar da própria saúde.
A substituição da lógica da escala 6×1 por uma rotina 5×2 representa, para muitos, um avanço civilizatório, mas existe uma pergunta que precisa ser feita: o que muda, de fato, para as mulheres?
Para milhões delas, especialmente mulheres negras, a resposta é desconfortável. Enquanto a sociedade comemora dois dias de descanso, elas seguem trabalhando, e trabalhando muito.
O fim do expediente formal não significa o fim da jornada. Ao chegar em casa, começa outro turno: preparar refeições, organizar a casa, cuidar de crianças, acompanhar tarefas escolares, administrar consultas médicas, dar suporte emocional à família, cuidar de idosos e resolver uma infinidade de demandas invisíveis que mantêm a vida funcionando e que são administrados pelas mulheres.
Essas demandas realizadas pelas mulheres, é o que estudiosos chamam de dupla ou tripla jornada. Na prática, porém, trata-se de algo ainda mais profundo, pois se trata da naturalização de que o tempo das mulheres pertence aos outros.
Para as mulheres negras, essa realidade costuma ser ainda mais severa. Historicamente as mulheres negras foram colocadas nos espaços do cuidado e do trabalho doméstico, muitas acumulam atividades remuneradas e não remuneradas em uma proporção que compromete sua saúde física, mental e financeira. Não é raro que uma mulher negra cuide da própria casa, da casa onde trabalha e, muitas vezes, de familiares de diferentes gerações.
Quando falamos em redução da jornada de trabalho, precisamos ampliar o conceito de trabalho, porque cozinhar, limpar, educar, cuidar, organizar e acolher também são formas de trabalho, que não são reconhecidas, remuneradas ou contabilizadas da mesma forma.
O resultado dessa escala insana é uma sociedade que continua sustentando parte significativa de sua economia sobre o esforço invisível das mulheres, por isso, se queremos falar seriamente sobre qualidade de vida, não basta reduzir a carga horária formal, mas é preciso enfrentar a desigualdade na distribuição das responsabilidades domésticas e de cuidado.
Para isso as políticas públicas precisam incluir as mulheres de forma que possam ser enxergadas como trabalhadoras formais e informais em seus lares, buscando ampliar a oferta de escolas que atendam verdadeiramente seus filhos com educação e aulas extras de qualidade durante sua permanência, que exista uma extensão de centros-dia para idosos com alta qualidade e programas de apoio a cuidadores familiares, que seja reconhecida à licença parental compartilhada de igual modo para as famílias, que efetivamente exista uma educação voltada à divisão igualitária das tarefas domésticas desde a infância e equipamentos públicos que reduzam a sobrecarga do cuidado, tornando visível aquilo que durante séculos foi tratado como obrigação feminina.
A conquista de mais tempo livre só será completa quando as mulheres puderem, de fato, usufruir desse tempo como cidadãs plenas, e não apenas como administradoras permanentes das necessidades dos outros.
Enquanto isso não acontecer, muitas continuarão vivendo uma escala que jamais entrou em debate, a escala 7×0 do cuidado invisível que está sobre todas nós !
Nos sobrecarregam dia após dia com a motivação de que esse é nosso destino, ou que nós o buscamos, mas negam nossa liberdade de mudarmos ou sermos reconhecidas, pelas infinitas contribuições que entregamos à sociedade.

Por: Hellen Santos






