Caricaturas Negras: Quando a representatividade vira decoração e a consciência cabe apenas no calendário
Traço Feminino
Um espaço acolhedor que trará de forma acessível assuntos necessários como direitos das mulheres, a luta das mulheres negras, a violência contra a mulher e o que fazer nessas situações, dentre outros temas relacionados à mulher.
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Caricaturas Negras: Quando a representatividade vira decoração e a consciência cabe apenas no calendário
Chega novembro e, quase como um ritual, a população negra volta a ocupar determinados espaços. Aparecemos nas homenagens, nas programações culturais, nos discursos institucionais, nas campanhas de conscientização e nas publicações que celebram a diversidade. Nós, mulheres negras, ganhamos destaque: somos fotografadas, homenageadas, convidadas a contarmos nossas histórias, transformadas em inspiração e somos colocadas no centro das celebrações.
Mas a pergunta que faço a vocês é: onde nós estamos quando as decisões são tomadas?
É justamente por essa demarcação cultural que a nossa consciência precisa mudar, pensando em qual celebração faz sentido sermos lembradas e provocarmos mudança entre nós ( irmãos e irmãs negras).
Em Itapira, assim como em tantas outras cidades, precisamos olhar para além das datas simbólicas e observar quem efetivamente ocupa os lugares de escolha e decisão. Não basta alguém falar sobre respeito à população negra, se os espaços continuam pouco ocupados por nós. Não basta reconhecer a contribuição das mulheres negras para a construção da sociedade em que vivemos, se nós continuamos encontrando portas estreitas, convites limitados e barreiras, muitas vezes silenciosas, para chegarmos aos lugares onde o poder circula.
Furar essa bolha não é simples! Para muitas de nós, a trajetória profissional e social ainda é atravessada pela necessidade de provar competência repetidas vezes, para conquistar credibilidade em ambientes nos quais nossa presença não é habitual e enfrentar expectativas que nem sempre são impostas às demais mulheres. É preciso ser excelente, resiliente, articulada, preparada e, ainda assim, lidar com o questionamento sobre se “aquele lugar realmente nos pertence”.
E não estamos falando de falta de capacidade, estamos falando de estruturas de oportunidade, de acesso, de reconhecimento e de pertencimento.Há também uma caricatura que se repete todos os anos, que é a ideia de que a consciência negra pode ser resumida a um evento, uma homenagem, um concurso de beleza, uma apresentação cultural ou uma programação temática.
Não há problema em celebrar a beleza, a cultura, a ancestralidade, a estética e as expressões da identidade negra, mas o problema começa quando essas manifestações se tornam o limite da nossa capacidade de enxergar a população negra em nossa cidade.
A mulher negra não pode ser lembrada apenas por estereótipos de beleza, dança, força, alegria, culinária, cabelo ou pela capacidade de superar adversidades, ela não é uma personagem de novembro, ela é intelectual, empresária, pesquisadora, professora, gestora, artista, profissional, liderança comunitária, formuladora de políticas, agente de transformação, e muito mais..
Temos que ter o direito de ocupar espaços sem precisar transformar a nossa existência em uma demonstração permanente de resistência, e para isso precisamos ter cuidado, inclusive, com as formas de celebrar.
Quando as comemorações do mês da Consciência Negra se concentram exclusivamente em concursos de beleza, apresentações folclorizadas ou representações estéticas previamente esperadas, corremos o risco de reforçar justamente os estereótipos que deveríamos questionar. A cultura negra é rica, plural e merece ser celebrada, mas não pode ser aprisionada em uma única imagem, em um único comportamento ou em uma expectativa social.
Aqui provoco para o fato sobre a ideia de não estar dizendo que não devemos celebrar a beleza negra, acredito que devemos sim, mas também perguntando, porque tantas vezes, parece mais fácil celebrar a aparência do que reconhecer a competência, a inteligência, a autonomia e o poder de decisão dessas mulheres.
Talvez seja mais confortável construir uma programação sobre representatividade do que rever os critérios de seleção, as relações de influência, as redes de indicação e os mecanismos que determinam quem chega aos espaços de poder, afinal, celebrar não exige necessariamente compartilhar poder, reconhecer em um discurso é muito mais simples do que abrir uma porta, oferecer uma oportunidade ou dividir uma mesa de decisão.
E é justamente por isso que a Consciência Negra precisa ultrapassar novembro. Não podemos permitir que a presença negra seja sazonal, mas que as mulheres negras sejam protagonistas para muito além de uma semana e tornem-se visíveis durante os outros onze meses também, que a diversidade esteja nos cartazes e nos organogramas, que seja celebrada nos palcos, e também esteja presente nas reuniões em que se definem os rumos da nossa cidade.
Porque representatividade não é somente aparecer, é pertencer, ter voz, autonomia, reconhecimento e condições reais de permanência. É poder escolher, propor, discordar, liderar e decidir.
Talvez a maior caricatura da consciência negra seja justamente aquela que construímos quando acreditamos que homenagear substitui incluir, que celebrar substitui reconhecer e que dar visibilidade por um dia significa garantir oportunidades durante o ano inteiro.
Que nós, mulheres negras, possamos um dia não precisarmos apenas sermos lembradas, mas estar presente nos espaços que ainda precisamos existir!

Por: Hellen Santos



