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Gazeta Itapirense

Não devo nada ao feminismo, mas quem abriu a porta?, por Hellen Santos

Coluna Traço Feminino

Um espaço acolhedor que trará de forma acessível assuntos necessários como direitos das mulheres, a luta das mulheres negras, a violência contra a mulher e o que fazer nessas situações, dentre outros temas relacionados à mulher.

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Não devo nada ao feminismo, mas quem abriu a porta?

 

No último domingo, 04,  enquanto o Brasil contava os votos e comemorava o aumento da presença feminina na política, uma frase me perseguiu: “Eu não devo nada ao feminismo.”

A narrativa apareceu de diferentes maneiras e em diversas bocas. Algumas mulheres disseram que chegaram onde chegaram por mérito próprio, outras rejeitaram o feminismo por considerá-lo radical ou ultrapassado, mas talvez seja hora de fazer uma pergunta incômoda: o que significa, afinal, não dever nada ao feminismo?

Eduarda Campopiano, do PL de São Paulo, eleita deputada estadual com quase dois milhões de votos, declara-se antifeminista e chegou a questionar publicamente a existência do feminicídio.

É preciso fazer uma distinção importante aqui. Uma mulher pode ser conservadora, religiosa, ter os valores tradicionais, pode, inclusive, criticar o feminismo, mas o que acontece quando rejeitar o feminismo significa negar que mulheres sofrem violências específicas justamente por serem mulheres?

Feminicídio não é uma invenção retórica, é uma categoria jurídica criada para reconhecer uma realidade de violência contra mulheres. Podemos discutir leis, punições e políticas públicas, mas o  que não podemos fazer é apagar a realidade porque a palavra incomoda.

Uma mulher assassinada por ser mulher não deixa de ser vítima de violência de gênero porque alguém decidiu não chamar isso de feminicídio.

Talvez precisemos também retirar o feminismo da caricatura, pois não se trata de  odiar homens, não é pensar igual,  concordar com tudo, e muito menos uma competição para saber quem é mais radical, mas é reconhecer que mulheres, historicamente, tiveram menos acesso a direitos, poder, educação, autonomia e representação política, e  que muitas dessas conquistas foram resultado de mulheres que lutaram antes de nós.

Por isso, uma pergunta permanece: Quem abriu a porta? A mulher que hoje vota, estuda, trabalha, disputa eleições e ocupa o parlamento pode não se considerar feminista, e  isso é uma escolha legítima,  mas não deveria apagar a história de quem lutou para que essas possibilidades existissem.

O feminismo não exige que mulheres pensem da mesma maneira, apenas pede reconhecimento sobre a  nossa dignidade, nossa liberdade e nossa vida , e exige que esses pontos não possam ser negociados.

E o que isso tem a ver com o segundo turno das eleições presidenciais no Brasil que ocorrerá no dia 25 de outubro ?

Não temos uma mulher disputando a presidência, teremos dois homens diante das urnas e, novamente, nós, mulheres, precisamos escolher. Talvez este seja o momento de ultrapassar a ideia de votar simplesmente porque alguém é homem ou mulher, de direita ou de esquerda, mas  precisaremos  olhar para propostas, históricos e compromissos e se perguntar: qual projeto reconhece melhor as mulheres que somos  e também aquelas que não somos?

Mulheres negras, brancas, indígenas, pobres, ricas, mães, não mães, religiosas, ateias, jovens, idosas, com deficiência, trabalhadoras, empresárias, mulheres da periferia e dos grandes centros. Não existe uma única mulher brasileira, por isso, o nosso voto precisa perguntar o que cada projeto propõe para combater a violência contra as mulheres,  o que propõe para  proteger meninas,  como  garantir autonomia econômica, como enfrentar o feminicídio,  como ampliar a participação feminina em todos os espaços de poder, para  que mulheres possam existir e falar sem medo.

Não precisamos de políticos que falem por nós o tempo todo. Precisamos de políticos que garantam que possamos falar, que defendam o nosso direito de existir de muitas maneiras, porque ser feminista não significa concordar sobre tudo, mas reconhecer que ser mulher ainda pode significar enfrentar opressão, desigualdade e violência,  e que lutar contra isso é necessário.

Antes de entregar seu  voto no dia 25 de outubro para decidir quem irá governar por 4 anos o nosso país,  faça essa pergunta aos 2 candidatos :

“Você está disposto a nos deixar existir, falar e escolher quem queremos ser?”

 

Por: Hellen Santos

hellenccsed@gmail.com