Pular para o conteúdo principal

Gazeta Itapirense

Mais tecnologia para quem move a economia: nossos empreendedores; por Vinícius Marchese

A inteligência artificial já começou a mudar a produtividade das empresas. Automatiza tarefas, reduz o tempo gasto em processos, amplia a capacidade de análise e permite que equipes pequenas façam coisas que, até pouco tempo atrás, exigiam estruturas muito maiores.

A questão que o Brasil precisa enfrentar é quem terá condições de aproveitar essa transformação.

Os primeiros números revelam uma diferença importante. Segundo a TIC Empresas 2025, do Cetic.br, 50% das empresas de grande porte, com 250 ou mais pessoas ocupadas, utilizavam inteligência artificial. Entre as pequenas, de 10 a 49 pessoas ocupadas, eram 15%. Em 2024, esses percentuais eram de 38% e 10%, respectivamente.

A adoção cresce nos dois grupos, portanto, mas em ritmos e condições bastante diferentes.

Uma grande companhia pode contratar especialistas, desenvolver sistemas próprios, adquirir soluções, testar ferramentas e absorver o custo de experiências que eventualmente não deem resultado. Para uma pequena empresa, o cálculo é outro.

Eu também sou empreendedor e conheço essa realidade. Quem administra um negócio precisa cuidar de receita, salários, clientes, impostos, fornecedores, crédito e investimentos. Incorporar uma tecnologia que muda rapidamente exige tempo, conhecimento e recursos que nem sempre estão disponíveis.

É nesse ponto que a transformação tecnológica encontra um problema econômico que o Brasil já conhece: a desigualdade de produtividade.

Se empresas com maior estrutura conseguirem usar a inteligência artificial para produzir mais, reduzir custos e tomar decisões melhores, enquanto pequenos negócios enfrentarem dificuldades para incorporar essas ferramentas, a tecnologia poderá ampliar a distância entre quem já é mais produtivo e quem ainda busca ganhar eficiência.

Isso tem uma dimensão econômica enorme. Segundo o Sebrae, o Brasil chegou a 24 milhões de pequenos negócios ativos em 2026. Eles representam 95% das empresas em atividade e respondem por 26,5% do Produto Interno Bruto. Em 2025, foram responsáveis por 80% das vagas de trabalho geradas no país.

Não haverá avanço consistente da produtividade brasileira se uma parcela tão relevante da economia ficar à margem dessa transformação.

Mas há uma distinção fundamental. Tecnologia é ferramenta, não finalidade.

A inteligência artificial não substitui talento, conhecimento, criatividade ou uma boa ideia. Tampouco transforma automaticamente uma empresa em inovadora. Seu valor aparece quando ajuda pessoas e organizações a resolver problemas concretos, melhorar processos, reduzir desperdícios e produzir melhor.

Para os pequenos negócios, essa distinção é ainda mais importante. Democratizar a inteligência artificial não significa simplesmente ampliar o acesso a plataformas. Significa criar condições para que o empresário saiba onde e como utilizá-las e consiga transformar tecnologia em resultado.

Isso exige qualificação profissional, acesso a conhecimento, crédito para modernização e aproximação entre empresas, universidades, startups e centros de inovação. Exige também um ambiente de negócios em que o empreendedor possa dedicar menos tempo à burocracia e mais energia ao desenvolvimento da própria empresa.

O poder público tem um papel importante nesse processo, mas não cabe a ele determinar qual tecnologia cada negócio deve adotar. Sua função é criar condições para que inovação e produtividade não sejam privilégios definidos pelo tamanho da empresa ou por sua capacidade de investimento.

A própria natureza da inteligência artificial abre uma oportunidade. Muitas das ferramentas disponíveis hoje podem ser incorporadas sem que uma pequena empresa precise desenvolver sistemas próprios ou realizar grandes investimentos em infraestrutura. Recursos antes restritos a organizações com estruturas robustas começam a ficar ao alcance de negócios menores.

A tecnologia, portanto, tanto pode ampliar distâncias como ajudar a reduzi-las.

O resultado dependerá da nossa capacidade de formar pessoas, disseminar conhecimento e permitir que empresas de diferentes portes transformem inovação em produtividade.

Boa parte do debate sobre inteligência artificial está concentrada no que as máquinas serão capazes de fazer. Para um país com milhões de pequenos negócios, existe uma pergunta anterior e talvez mais urgente: quem terá condições de usá-las?

Se a resposta for apenas quem já dispõe de capital, conhecimento e estrutura, teremos transformado uma oportunidade de democratizar a produtividade em mais uma fonte de desigualdade.

 

Vinicius Marchese, candidato a deputado federal por São Paulo, é engenheiro de Telecomunicações, presidente licenciado do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) e doutorando em Cidades Inteligentes e Sustentáveis.