Escândalo: Gabinete do prefeito orienta entidades a “vender” Festa do Peão para empresa privada
O que deveria ser uma discussão sobre a realização de uma festa em Itapira ganhou contornos muito mais graves depois que mensagens disparadas de dentro do gabinete do prefeito Toninho Bellini revelaram uma orientação para que entidades assistenciais “vendessem” a Festa do Peão para uma empresa privada.
Os prints obtidos com exclusividade pela Gazeta mostram mensagens enviadas por Taciana Storari, servidora que ocupa posição de destaque na administração municipal, com status de secretária de Governo. O conteúdo das mensagens coloca o próprio gabinete do prefeito no centro da articulação para encontrar uma empresa que assumisse a realização do evento.
É esse o ponto que transforma o caso em um escândalo político.
Não se trata simplesmente de uma entidade decidir contratar uma produtora para organizar uma festa. A sugestão partiu de dentro da Prefeitura.
Veja abaixo a mensagem na íntegra:
Bom dia
Segue algumas informações importantes sobre as tratativas da reunião do Rodeio.
Após a assinatura do termo com o Município, as entidades passarão à fase de execução do evento.
Para facilitar essa organização, elas poderão contratar uma produtora especializada, por meio de contrato próprio. Esse contrato tem regras específicas e estabelece quais atividades e responsabilidades de execução ficarão a cargo da produtora.
Na prática, portanto, as entidades continuam sendo as parceiras formais do Município, mas a produtora será responsável pela parte operacional do evento, conforme aquilo que foi previsto no contrato firmado com as entidades.
Assim, a dinâmica será a seguinte: o Município cumpre as obrigações previstas no termo; as entidades mantêm a parceria institucional com o Município; e a produtora executa o evento, assumindo as responsabilidades operacionais que lhe foram repassadas contratualmente.
O contrato com a produtora é separado do termo firmado com o Município e disciplina diretamente a relação entre as entidades e a empresa responsável pela realização do evento.
A orientação foi dada no contexto das tratativas conduzidas pelo governo municipal para viabilizar o Itapira Rodeio Show 2026, que tradicionalmente ocorre em julho e agora passou a ser cogitado para outubro, em uma operação montada em ritmo acelerado.
A pergunta que a administração de Toninho Bellini precisa responder é simples: se as tratativas ainda eram apenas preliminares, como afirma a Prefeitura, por que o gabinete do prefeito já estava orientando entidades sobre a possibilidade de “vender” a festa para uma empresa privada?

E por que as entidades assistenciais precisariam aparecer formalmente na operação se, na prática, uma empresa privada poderia assumir a realização do evento?
O próprio acordo elaborado pela Prefeitura ajuda a dimensionar a operação.
O prefeito Toninho Bellini criou dificuldades para as entidades para vender facilidades, ou melhor, para oferecer uma empresa privada para de fato fazer a festa.
As entidades seriam responsáveis por uma série de obrigações relacionadas à realização do rodeio, enquanto o Município disponibilizaria gratuitamente o recinto e contrataria dois shows.
Na prática, portanto, dinheiro e estrutura pública poderiam ser colocados no evento, enquanto uma empresa privada ficaria com a execução da festa e o lucro, logicamente.
E as entidades? Estas ficariam apenas com os mantimentos que forem arrecadados pois o dinheiro arrecadado com a ‘venda’ da Festa do Peão seria para pagar um dos shows.
É justamente essa combinação que exige explicações.
O caso ganha ainda mais força diante de outro episódio ocorrido nesta semana. Na terça-feira, 1º de setembro, o prefeito Toninho Bellini, pessoas envolvidas nas tratativas do rodeio e um empresário do setor de eventos de rodeio foram vistos juntos na Choperia Vô Jaca.
A presença do empresário não comprova que tenha ocorrido contratação ou que ele tenha sido escolhido para administrar o evento. Mas, diante da existência das mensagens, o encontro levanta uma questão inevitável sobre o estágio real das negociações.
Enquanto Toninho Bellini se prepara para injetar dinheiro público em uma ‘Festa do Peão’ com ares de filantropia, mas que de fato é particular, Itapira enfrenta dificuldades financeiras.
Nesta semana, a Prefeitura assumiu e parcelou uma dívida de aproximadamente R$ 1,8 milhão com o Condesu, ligada a serviços como manutenção e troca de iluminação pública e limpeza urbana.
Ao mesmo tempo, a administração trabalha para viabilizar um rodeio que poderá exigir recursos públicos para dois shows e para toda a preparação da estrutura do recinto. Estimativas que circulam nas tratativas apontam para algo próximo de R$ 1 milhão, embora esse valor ainda não tenha sido confirmado como despesa definitiva pela Prefeitura.
Ou seja: enquanto o município parcela dívida relacionada a serviços essenciais, o governo municipal discute como colocar de pé uma festa de grande porte e, segundo as mensagens, como entregá-la à administração de uma empresa privada.
Entidades começam a abandonar projeto
A repercussão das tratativas também provocou mudanças entre as entidades convidadas a participar do projeto.
Na sexta-feira, 4 de setembro, a maioria teria desistido de continuar envolvida na organização. Segundo as informações obtidas pela reportagem, apenas uma entidade teria aceitado permanecer.
A saída das entidades coloca ainda mais pressão sobre a Prefeitura, já que elas eram peça importante do modelo inicialmente apresentado pelo governo.
Prefeitura diz que tudo era preliminar
Em resposta oficial enviada para a reportagem da Gazeta que questionou as mensagens da Taciana Storari, a Prefeitura de Itapira afirmou que foram realizadas apenas tratativas preliminares para avaliar a possibilidade de uma nova edição do Itapira Rodeio Show.
A administração confirmou que o modelo discutido previa que as entidades poderiam organizar o evento diretamente ou contratar uma empresa especializada.
Segundo a Prefeitura, eventual apoio do Município ainda dependeria de análises técnicas, jurídicas, orçamentárias e administrativas e não havia definição final sobre formato, valores, atrações ou participação financeira.
A administração também afirmou que algumas entidades decidiram não prosseguir e que a decisão será respeitada.
O governo municipal disse ainda que estudará outras formas de estruturar o evento e que qualquer participação financeira seguirá os procedimentos legais.
A Prefeitura classificou como prematuras as acusações de irregularidades, afirmando que não existe contratação ou destinação definitiva de recursos.
Mas a resposta oficial não enfrenta o principal ponto revelado pelos documentos.
A questão não é se já existe um contrato assinado.
A questão é por que, antes de qualquer definição pública, uma orientação para “vender” a Festa do Peão a uma empresa privada já circulava dentro do gabinete do prefeito.
Se realmente não havia nada definido, quem autorizou ou orientou essa articulação?
Qual empresa estava sendo considerada?
E por que uma servidora com status de secretária de Governo estava conduzindo esse tipo de orientação às entidades? A Festa do Peão é um evento privado e, de forma alguma, uma secretária de Governo pode usar a estrutura da Prefeitura para organizar o evento.
Essas perguntas estão no centro do escândalo.
A população de Itapira não está diante apenas da discussão sobre uma festa.
Está diante de uma operação que envolve uma possível empresa privada, entidades assistenciais, estrutura pública, contratação de shows com recursos municipais e uma orientação que saiu de dentro do gabinete do prefeito para que a festa fosse “vendida”.
Agora, Toninho Bellini precisa explicar quem estava por trás dessa negociação e qual era, de fato, o plano para o Rodeio de Itapira.
Porque se a festa ainda era apenas uma possibilidade, como sustenta a Prefeitura, alguém precisa explicar por que a sua “venda” já estava sendo discutida dentro do gabinete do prefeito.






