O Brasil precisa voltar a formar engenheiros, por Vinícius Marchese
O Brasil voltou a discutir grandes projetos. Saneamento, habitação, rodovias, ferrovias, energia renovável, conectividade, transformação digital e adaptação das cidades às mudanças climáticas estão novamente no centro da agenda nacional. Mas há uma pergunta que deveria acompanhar cada anúncio de investimento: quem vai projetar e executar tudo isso?
A questão é menos retórica do que parece. Segundo estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Brasil já enfrenta um déficit de cerca de 75 mil engenheiros. Projeções do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) indicam que essa carência pode chegar a 500 mil profissionais até 2030 e alcançar 1 milhão ao longo da próxima década.
Durante muito tempo, a falta de engenheiros foi tratada principalmente como um problema do mercado de trabalho da própria categoria. Essa leitura já não é suficiente. A escassez desses profissionais começa a representar uma questão estratégica para o país.
Podemos anunciar investimentos, criar programas públicos, realizar concessões e estabelecer metas ambiciosas. Mas entre a decisão de investir e a entrega de uma obra existe uma cadeia de conhecimento técnico que não pode ser improvisada.
Antes de uma ponte, uma estação de tratamento, uma linha de transmissão ou um sistema de mobilidade começar a operar, alguém precisa estudar sua viabilidade, elaborar o projeto, calcular custos, definir soluções, acompanhar cronogramas, fiscalizar contratos e garantir segurança e qualidade. A engenharia é uma das pontes entre o investimento anunciado e o resultado entregue à população.
Quando essa capacidade técnica é insuficiente, projetos demoram a sair do papel, obras atrasam, custos aumentam e investimentos perdem eficiência. Em alguns casos, o recurso existe, mas falta estrutura para transformá-lo em um projeto consistente e executável.
Nos municípios, o problema se torna ainda mais evidente. Prefeituras precisam responder a demandas cada vez mais complexas de saneamento, habitação, mobilidade, conectividade e adaptação climática. Sem equipes técnicas fortalecidas, aumenta a dificuldade para estruturar projetos, buscar investimentos e acompanhar sua execução.
Por isso, formar engenheiros não pode ser entendido apenas como uma política educacional ou uma reivindicação de uma categoria profissional. É política de desenvolvimento.
Precisamos tornar as engenharias novamente atrativas para os jovens, fortalecer a formação acadêmica e aproximá-la das transformações que já redesenham a economia. Inteligência artificial, automação, transição energética, infraestrutura digital e adaptação climática exigirão profissionais preparados para novos desafios.
Também precisamos recuperar o espaço do conhecimento técnico dentro do Estado. Engenheiros, arquitetos, geólogos, geógrafos e profissionais de tecnologia devem participar desde a formulação das políticas públicas, do planejamento territorial e da definição das prioridades de investimento.
Há, por fim, uma questão de tempo que o Brasil não pode ignorar. Uma grande obra pode ser anunciada em uma cerimônia. Um engenheiro leva anos para ser formado. Se queremos ampliar a capacidade de investimento nesta década, precisamos preparar agora os profissionais que estarão à frente desses projetos.
O Brasil tem recursos, universidades, empresas e uma enorme demanda por infraestrutura. Não pode descobrir, tarde demais, que faltam pessoas qualificadas justamente quando surgem oportunidades para acelerar seu desenvolvimento.
Podemos ter recursos, programas e boas ideias. Mas desenvolvimento não acontece por decreto. Alguém precisa planejar, projetar e executar.

Vinicius Marchese
Candidato a deputado federal por São Paulo, engenheiro de Telecomunicações, presidente licenciado do Confea e doutorando em Cidades Inteligentes e Sustentáveis.





