A casa ainda espera, por Guilherme Reis
Às vezes o vento abre a janela
do mesmo jeito que meu pai fazia.
Por um segundo eu esqueço o tempo
e penso que ouvi seus passos no corredor.
Minha mãe ainda mora
no cheiro do café da manhã,
nas xícaras que ninguém usa,
na toalha dobrada sobre a mesa.
Meus irmãos vivem escondidos
no barulho da chuva no telhado,
na cadeira vazia da varanda,
no silêncio que sempre chega depois.
Todos partiram para uma guerra
que nunca terminou dentro de mim.
Vestiram o último abraço
e desapareceram atrás do horizonte,
como se o céu tivesse aprendido
a engolir nomes.
Desde então, eu converso com fantasmas
nos pequenos instantes da vida.
Quando corto o primeiro pedaço de pão,
lembro de quem o repartia.
Quando o inverno chega mais cedo,
procuro um casaco que já não tem dono.
Quando vejo uma mesa posta,
ainda conto lugares
para pessoas que nunca mais voltarão.
Dizem que o tempo cura.
Mas o tempo só aprende
a esconder a dor nos detalhes.
Ela mora no banco vazio da praça,
na luz acesa de um quarto fechado,
na fotografia que perdeu a cor,
no sobrenome que agora pesa mais do que protege.
Minha casa continua de pé.
As paredes ainda conhecem meu nome.
A porta ainda range ao amanhecer.
Mas um lar não sobrevive apenas de tijolos.
Porque toda vez que acontece
alguma coisa bonita,
meu primeiro pensamento ainda é:
“Preciso contar para eles.”
E é nesse instante que me lembro…
Não haverá resposta.
Não haverá risos na cozinha.
Não haverá braços esperando na porta.
A guerra levou seus corpos.
E o silêncio ficou para cuidar de mim.
Desde então, eu moro onde nasci.
Mas meu lar…
foi embora junto com eles.

Este texto é de autoria de Guilherme Reis, escritor itapirense que explora, em suas obras, temas variados que vão do amor à ficção científica, sempre com uma abordagem criativa, reflexiva e marcada pela imaginação.
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