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Gazeta Itapirense

Cidade inteligente não é a cidade do futuro. É a cidade que precisa funcionar hoje  

Quando se fala em cidade inteligente, ainda é comum imaginar um cenário futurista: inteligência artificial, carros autônomos, sensores espalhados pelas ruas e sistemas capazes de controlar praticamente tudo. A tecnologia faz parte dessa transformação, mas começar a discussão por ela é inverter a lógica.

A cidade mais inteligente não é necessariamente a que tem mais tecnologia. É aquela que funciona melhor para as pessoas.

E isso começa pelo básico.

É o trabalhador ter transporte público para chegar ao emprego. É uma mãe conseguir atendimento de saúde para o filho sem transformar uma consulta em uma peregrinação. É uma família ter acesso à moradia digna. É contar com saneamento, infraestrutura, segurança, educação e serviços públicos que acompanhem o crescimento da cidade.

Esse debate diz respeito à imensa maioria dos brasileiros. Segundo o Censo 2022 do IBGE, 177,5 milhões de pessoas, 87,4% da população brasileira, vivem em áreas urbanas. Discutir o futuro do Brasil é, necessariamente, discutir como nossas cidades funcionam.

Por isso, precisamos ressignificar o conceito de cidade inteligente. Não podemos medir inteligência urbana pela quantidade de aplicativos, câmeras ou sensores instalados. O verdadeiro indicador deve ser a qualidade de vida e a capacidade do poder público de responder às necessidades da população.

Isso não significa colocar a inovação em segundo plano. Significa dar a ela um propósito.

Um aplicativo de saúde, por exemplo, só representa avanço se facilitar a marcação de consultas, exames e o acesso ao atendimento. Digitalizar um serviço que não funciona não faz dele um bom serviço.

Na mobilidade, a lógica é a mesma. Inteligência artificial, sensores e sistemas de monitoramento podem melhorar o trânsito e o transporte coletivo. Mas, para quem passa horas todos os dias no deslocamento, a inovação precisa significar menos tempo perdido e mais qualidade de vida.

Os números ajudam a dimensionar esse problema. Dados do Censo 2022 mostram que cerca de 1,3 milhão de brasileiros levam mais de duas horas para chegar ao trabalho. Em São Paulo, 2,8 milhões trabalham em um município diferente daquele onde moram.

Tecnologia sem propósito é apenas tecnologia. Inovação de verdade é aquela que resolve problemas reais.

Esse debate é especialmente importante para São Paulo e, especialmente, para as cidades do interior. Municípios cresceram, novos polos econômicos surgiram, bairros se expandiram e aumentaram as demandas por mobilidade, habitação, saneamento, saúde, conectividade e infraestrutura. O planejamento urbano precisa acompanhar essa transformação.

É justamente aí que a engenharia precisa estar no centro das decisões públicas.

Uma cidade não pode ser planejada apenas para resolver a urgência de hoje. Uma avenida, uma rede de drenagem ou um sistema de transporte precisam considerar como aquele território estará daqui a dez ou vinte anos. Planejar antes custa menos do que corrigir depois.

E esse desafio não pode ficar exclusivamente nas mãos dos prefeitos. O governo federal tem papel decisivo no financiamento de infraestrutura, habitação, saneamento, mobilidade e conectividade. O Congresso Nacional também participa desse processo ao definir políticas públicas, prioridades orçamentárias e instrumentos que permitam aos recursos chegar aos municípios.

Muitas cidades conhecem seus problemas, mas enfrentam dificuldades para elaborar projetos e acessar recursos. Não basta disponibilizar dinheiro. É preciso ajudar, principalmente os pequenos e médios municípios, a transformar necessidades em projetos e projetos em obras.

Ser engenheiro me ensinou uma regra simples: antes de buscar a solução mais sofisticada, precisamos compreender corretamente o problema que queremos resolver.

Nas cidades não é diferente.

Não precisamos escolher entre inovação e serviços básicos. Precisamos usar inovação, engenharia e planejamento para fazer o básico funcionar melhor.

A cidade inteligente que defendo não pertence a um futuro distante. É aquela que planeja antes de improvisar, previne antes de remediar e coloca a tecnologia a serviço das pessoas.

Porque, no fim das contas, uma cidade só pode ser chamada de inteligente quando quem vive nela consegue viver melhor.

 

Vinicius Marchese, pré-candidato a deputado federal por São Paulo, é engenheiro de Telecomunicações, presidente licenciado do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) e doutorando em Cidades Inteligentes e Sustentáveis.