Pular para o conteúdo principal

Gazeta Itapirense

Cristália e Bairral assinam parceria para desenvolver tecnologia para reversão da overdose

O Laboratório Cristália e o Instituto Bairral de Psiquiatria firmaram uma parceria para a realização dos estudos clínicos de um novo produto voltado à reversão de quadros de overdose por drogas. A tecnologia foi desenvolvida na Universidade Federal de Goiás (UFG) e passou a ser codesenvolvida pelo Cristália, representando uma inovação farmacêutica com potencial para transformar o atendimento emergencial de pacientes com intoxicação grave.

Batizado inicialmente de “Lipossoma de Resgate”, o projeto encontra-se em fase de escalonamento para a produção do lote-piloto, etapa que antecede os estudos clínicos. A tecnologia ainda está em desenvolvimento e não possui aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso clínico.

Para apresentar detalhes sobre o projeto, seu desenvolvimento científico e as próximas etapas da pesquisa, o Laboratório Cristália e o Instituto Bairral promoverão uma coletiva de imprensa no dia 30 de julho de 2026, em Campinas (SP).

Como funciona o Lipossoma de Resgate

A tecnologia utiliza lipossomas, pequenas estruturas esféricas formadas por camadas de gordura semelhantes às membranas das células humanas e com interior aquoso. Tradicionalmente, esses sistemas são empregados para transportar medicamentos até o organismo.

Neste projeto, entretanto, a proposta é inversa. Em vez de levar um fármaco ao organismo, os lipossomas atuam como captadores de determinadas substâncias tóxicas presentes na corrente sanguínea. Dessa forma, podem reduzir a quantidade dessas substâncias que chega a órgãos sensíveis, como cérebro e coração, contribuindo para diminuir seus efeitos tóxicos.

Tecnologias baseadas em lipossomas já são utilizadas mundialmente no tratamento do câncer, infecções graves e no controle da dor. Esta, porém, é a primeira pesquisa voltada ao uso dessa tecnologia para o tratamento da overdose por drogas.

Atualmente, não existe um medicamento específico aprovado para esse tipo de tratamento. Em muitos casos, são utilizadas alternativas terapêuticas off-label, quando medicamentos são empregados para finalidades diferentes das previstas em bula.

A opção mais utilizada é o Intralipid®, originalmente indicado para nutrição parenteral. Nos estudos pré-clínicos realizados até o momento, o Lipossoma de Resgate apresentou desempenho superior ao Intralipid®.

Pesquisa brasileira com potencial de impacto global

As pesquisas que deram origem ao projeto começaram em 2018, conduzidas pela equipe da professora Eliana Martins Lima, da Universidade Federal de Goiás. Pesquisadora da área de lipossomas desde 1993, ela desenvolveu a proposta de utilizar nanoestruturas como estratégia de resgate em casos de intoxicações graves.

A parceria entre a UFG e o Laboratório Cristália foi formalizada em 2024.

“Essa é uma proposta inédita de lipossoma com finalidade de resgate em intoxicações graves. Mais uma vez reunimos a experiência acadêmica da universidade pública e a capacidade industrial, regulatória e de desenvolvimento do Cristália para trazer soluções inéditas ao País”, afirma o médico Ogari Pacheco, cofundador e presidente do Conselho do Laboratório Cristália.

Como parceiro para a etapa de pesquisa clínica, o Cristália escolheu o Instituto Bairral de Psiquiatria, instituição especializada no tratamento de pessoas com dependência química.

O produto permanece em fase de testes regulatórios e ainda não possui nome comercial nem previsão de lançamento, etapas que dependerão da aprovação do registro pela Anvisa.

A pesquisadora por trás do projeto

O desenvolvimento científico é liderado por Eliana Martins Lima, professora titular da Universidade Federal de Goiás, com mais de 30 anos de atuação em sistemas de liberação de fármacos.

Ao longo de suas pesquisas com lipossomas, a professora identificou a ausência de terapias eficazes para o tratamento da overdose provocada por drogas de abuso e por medicamentos com características físico-químicas semelhantes às da cocaína e da lidocaína.

Essa lacuna motivou o desenvolvimento de um lipossoma capaz de remover substâncias tóxicas da corrente sanguínea, evitando intoxicações graves e propondo uma abordagem inédita para essa tecnologia.