Crônica: A cidade das pessoas polarizadas, por Rodrigo Alves de Carvalho
Existe uma pequena cidade onde quase todos os moradores são polarizados.
Mas, não quero dizer que possuem energia estática saindo da pontas de seus dedos devido a potenciais elétricos distintos, tampouco, porque usam óculos com lentes polarizadas que reduzem o brilho ofuscante em algumas superfícies.
Esses tais moradores são polarizados porque estão absortos em ideologias e “modinhas” políticas do momento, a tal modo de viverem suas tão curtas e “patéticas” vidas procurando alimentar a paixão para com os seus iguais em posições partidárias, e o ódio em relação aos seus “inimigos” que optaram por pensarem diferente deles.
Essas pessoas, usam das redes sociais para mostrarem seus posicionamentos, principalmente, respondendo de maneira bruta e ofensiva aos comentários de desafetos, mesmo que esses posts nada têm de ideológico ou político:
— Nasceu meu filho! Que alegria!
— Nasceu mais um idiota que vai pensar errado igual ao pai idiota!
Ou mesmo, quando a intenção seja a melhor possível, os polarizados não deixam passar em branco:
— Fulano salvou três crianças de um incêndio no centro.
— Só podia ser o fulano da oposição! Se fosse de nosso grupo, teria salvado o triplo de crianças. Bando de incompetentes!
(Observação: só haviam três crianças para serem salvas).
As pessoas polarizadas quase não se encontram nas ruas da cidade, porque quando uma dessas pessoas só vira para a direita numa esquina, a outra só vira para a esquerda nesta mesma esquina.
— Jamais irei andar no lado errado na rua!
Automóveis são encontrados aos montes parados nos cruzamentos, porque o motorista polarizado se recusa a obedecer às placas que informam obrigatório virar à esquerda ou virar à direita. Eles abandonam o carro, mas não seguem pelo caminho “do mal”.
Já houve casos de mortes, quando algumas pessoas polarizadas tentaram mudar o lado do coração através de cirurgias, por não aceitarem o lado em que o órgão se encontra no corpo humano.
Ultimamente também tem havido muitas ocasiões em que pais polarizados estão deserdando os filhos, por não aceitarem que o herdeiro tenha nascido destro ou canhoto.
Moradores polarizados agora brigam juntamente com os políticos polarizados para que o centro da cidade, não seja mais conhecido como centro. Um grupo quer que se chame Direita; outro grupo quer que passe a se chamar Esquerda. O problema (ou não) é que dependendo de como vai se chamar, o grupo perdedor ameaça ir embora da cidade.
Já o pequeno número de moradores não polarizados acha tudo isso uma idiotice e procuram viver suas vidas numa boa, trabalhando para poder pagar suas despesas, seus boletos e a cervejinha no final de semana. Mesmo tendo que aturar inúmeras babaquices dos conterrâneos “polarizados”.

RODRIGO ALVES DE CARVALHO nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta, possui diversos prêmios em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas promovidas por editoras e órgãos literários. Atualmente colabora com suas crônicas em conceituados jornais brasileiros e Blogs dedicados à literatura.
Em 2018, lançou seu primeiro livro intitulado “Contos Colhidos”, pela editora Clube de Autores. Trata-se de uma coletânea com contos e crônicas ficcionais, repleto de realismo fantástico e humor. Também pela editora Clube de Autores, em 2024, publicou o segundolivro: “Jacutinga em versos e lembranças” – coletânea de poemas que remetem à infância e juventude em Jacutinga, sua cidade natal, localizada no sul de Minas Gerais. Em 2025, publicou o terceiro livro “A saga de Picolândia” – série de relatos sócio políticos acontecidos em Picolândia – uma pequena cidade do interior, cuja sua principal fonte de renda é a produção de sorvetes. Com um tom humorístico e irônico, com uma pitada de realismo fantástico, a obra reúne diversas crônicas engraçadas narradas por um morador desta cidade.






