Denúncia: livreto do ‘kit bucal’ superfaturado tem erros ortográficos, ilustrações falhas e incoerências
A aquisição de kits de higiene bucal pela Prefeitura de Itapira, já envolta em questionamentos sobre superfaturamento, ganha agora um novo capítulo. Além dos valores pagos, uma análise detalhada do livreto que acompanha o material revelou uma série de falhas ortográficas, inconsistências nas ilustrações e erros de contexto que colocam em xeque a qualidade da obra entregue.
O livreto, intitulado “Aventura da Escovação”, de autoria de Rafael Camano Sá e publicado pela Editora Camano Sá, integra um kit composto por escova de dente, fio dental, pasta e estojo. No entanto, ao examinar o conteúdo das 20 páginas, a reportagem da Gazeta identificou problemas recorrentes que comprometem o caráter educativo do material.


Logo nas primeiras páginas, já é possível notar erro na utilização de aspas em um balão de diálogo — sinal de descuido na revisão textual. Em seguida, as falhas se estendem às ilustrações: um dos personagens, um coelho, aparece utilizando uma escova de dente com três cabeças, algo completamente incompatível com a realidade e com a proposta pedagógica do material.


Em páginas posteriores, os erros se tornam ainda mais evidentes. Em uma cena, a raposa é ilustrada com três orelhas, além de apresentar o rabo desconectado do corpo. Na mesma imagem, a escova utilizada pela personagem possui duas cabeças. Já em outro trecho, um urso aparece segurando duas escovas, sendo que uma delas sequer possui cabeça — apenas o cabo.
Outro ponto crítico envolve a incoerência entre texto e imagem. Em determinado momento, o diálogo informa que os animais criaram uma “escada” com livros para alcançar a boca de uma girafa. No entanto, a ilustração mostra um rato utilizando um móvel com gavetas, sem qualquer relação com o que foi descrito. Na mesma cena, há ainda mais falhas: a raposa aparece sem um dos braços e a girafa escova os dentes de maneira invertida, com o cabo na boca e as cerdas voltadas para fora.

Os problemas continuam nas páginas seguintes. Há uso incorreto de pontuação em balões de fala, com combinação inadequada de aspas e ponto de exclamação — prática que, do ponto de vista gramatical, deve ser usada com critério, e não de forma simultânea e desordenada como ocorre no material. Ainda nessas páginas, a raposa novamente aparece escovando os dentes de forma incorreta, com a escova invertida.
Em outra ilustração que ocupa duas páginas, o texto menciona um pato “com o bico cheio de espuma” e um gato “com a patinha molhada”. No entanto, nenhum desses animais aparece na imagem, evidenciando mais uma desconexão entre narrativa e ilustração.

Para completar, a contracapa do livreto traz um erro ainda mais básico: o próprio nome da obra é grafado incorretamente como “Aventura Noturna da Escovação”, quando o título correto é “Aventura da Escovação”.

Diante do volume e da natureza dos erros — que envolvem texto, imagem e coerência narrativa — especialistas ouvidos pela reportagem apontam indícios de que o material possa ter sido elaborado com uso de Inteligência Artificial, sem a devida revisão técnica e editorial.
Superfaturamento amplia questionamentos
As falhas no livreto se somam à polêmica já levantada com exclusividade anteriormente pela Gazeta sobre o custo dos kits. A Prefeitura de Itapira adquiriu 6.392 unidades ao valor total de R$ 1.054.680,00, o que representa R$ 165,00 por kit.
Entretanto, o mesmo material é comercializado no site da editora por R$ 89,90, gerando uma diferença de R$ 480.039,20. Além disso, levantamento de mercado aponta que os itens básicos do kit — escova, pasta, fio dental e estojo — possuem custo significativamente inferior, sendo o livreto o principal diferencial do produto.
Na verdade, o valor total da licitação se aproxima de R$ 2 milhões. No entanto, após denúncia publicada com exclusividade pela Gazeta, a Prefeitura não deu andamento ao processo que previa a compra de cerca de 5,5 mil kits destinados aos pais dos alunos.
A repercussão negativa da matéria e a possibilidade de mais questionamentos judiciais teriam contribuído para a suspensão da continuidade da aquisição por parte da administração do prefeito Toninho Bellini.
Qualidade sob suspeita
Com erros considerados básicos e repetitivos, o material levanta dúvidas não apenas sobre o processo de aquisição, mas também sobre os critérios de qualidade adotados. Para um conteúdo com finalidade educativa, voltado especialmente a crianças, especialistas ressaltam que a precisão das informações e das imagens é essencial.
A reportagem seguirá acompanhando o caso e aguarda posicionamento oficial da Prefeitura de Itapira e da editora responsável pela produção do material.
Outro lado
Nossa reportagem entrou em contato com o Departamento de Comunicação da Prefeitura para saber qual seria o posicionamento para mais esta aberração com o dinheiro suado do povo itapirense e a resposta foi a seguinte: “a Secretaria Municipal de Saúde, por intermédio do Departamento de Saúde Bucal, foi responsável pela aprovação da compra e recebeu amostras físicas do material antes da aquisição, mas nenhum erro mencionado foi identificado. Qualquer não conformidade encontrada nos kits será encaminhada à empresa fornecedora para regularização do material, desde que seja oficialmente informado à secretaria contratante.







