Gazeta Itapirense

Córrego Lavapés corre sob o Centro e ainda marca a história de Itapira

Muita gente que circula diariamente pelo Centro de Itapira sequer imagina que, sob o asfalto e as calçadas, corre um curso d’água que ajudou a moldar a história da cidade. Trata-se do Córrego Lavapés, que nasce em minas d’água na parte mais alta do município e atravessa a região central até desaguar no Ribeirão da Penha.

Hoje quase totalmente canalizado, o Lavapés desce desde a Vila Bazani, no trecho conhecido como “Tola Cavalo”, e passa sob vias movimentadas como as ruas XV de Novembro, Manoel Pereira, Rui Barbosa e João de Moraes.

Em seu trajeto subterrâneo, corre pelos fundos de estabelecimentos comerciais, sob o Shopping Sarkis Center, até voltar a aparecer a céu aberto em um trecho da rua Orestes Pucci, ao lado do antigo Hotel Central, e na rua Sete de Setembro, nas proximidades da casa da família Galdi.

Na rua Sete de Setembro, abaixo do Mercadão: muita gente nadava por ali (Foto: Gilmar Carvalho/Gazeta)

Antigamente chamado carinhosamente de “córguinho”, o Lavapés era ponto de encontro de crianças nas décadas de 60 e 70, que nadavam em suas águas e pescavam lambaris. Com o crescimento urbano, porém, o curso foi sendo coberto por obras e construções, tornando-se quase invisível para as novas gerações.

Mas o grande problema de se canalizar o Lavapés é sentido na época das grandes chuvas, quando pontos que ele passa transbordam, como as ruas Manoel Pereira, XV de Novembro e José Bonifácio.

Com as construções, o asfalto e áreas cimentadas, a água deixou de ser absorvida e só tem um caminho para chegar ao Ribeirão, que é o Córrego Lavapés e o fato de o trecho estar totalmente canalizado contribuiu para a enchente registrada na época.

Tubulação feita de tijolo no trecho da rua XV: ponto as vezes transborda (Foto: Gilmar Carvalho/Gazeta)

Apesar de praticamente encoberto, o Lavapés ainda resiste em alguns pontos. Na última semana, a reportagem percorreu trechos visíveis do córrego e constatou que, de modo geral, o curso apresenta condições satisfatórias, embora haja presença pontual de resíduos, principalmente sacolas plásticas levadas pelo sistema de águas pluviais.

Na região próxima ao encontro com o Ribeirão da Penha existe até um ‘pocinho’ que, segundo alguns pescadores, “dá lambari”.

Duas grandes ‘bocas’ de concreto decretam o ‘fim’ do Lavapés, que cai no Ribeirão da Penha (Foto: Gilmar Carvalho/Gazeta)

Embora grande parte do curso esteja hoje escondida sob o concreto, o Córrego Lavapés continua sendo parte fundamental da história e da dinâmica urbana de Itapira.

Especialistas alertam que preservar os trechos ainda abertos e adotar medidas sustentáveis nas futuras intervenções urbanas são passos essenciais para que o córrego não desapareça definitivamente da paisagem e da memória da cidade.

Depois de cruzar boa parte da cidade, o velho manancial chega até a rua Francisco Glicério (Foto: Gilmar Carvalho/Gazeta)

Boas lembranças

O professor e escritor Paulo Jonas de Lima Piva é morador da rua Presidente Kennedy e lembra dos momentos que passou na região onde ‘nasce’ o Lavapés: “eu nasci e cresci a uns cem metros do córrego e da bica d’água, que nós chamávamos de “Mininha”. E como cereja do bolo, paralela ao córrego, na parte de cima, também havia a linha do trem, da FEPASA. Enfim, nos anos setenta e oitenta, que foi a minha época de criança e adolescente, ali era um cenário de filme, um Tola Cavalo paradisíaco. Brinquei muito naqueles trilhos e principalmente naquelas águas. Aliás, eu assisti às várias etapas da metamorfose daquele córrego. Lembro-me da sua água cristalina antes dele virar um esgoto a céu aberto. Dava para ver os girinos nadando tranquilos. Lembro do barulho da água caindo nas pedras e dos cheiros de mato e limo do lugar, que muitas vezes se misturavam com o cheiro de ferro que vinha da metalúrgica Nogueira, que também ficava ali. Lembro-me das andorinhas mergulhando para beber água, do coaxar dos sapos e rãs à noite, e da umidade da madrugada, que saía do córrego e tomava conta das ruas próximas. Ali havia bambuzais, ameixeiras e mangueiras que se nutriam daquela exuberância de água e umidade por toda parte. Mas, com o tempo, aquilo foi virando um lixão. Aí, aos poucos, as obras de canalização foram sendo feitas e aquela paisagem foi se degradando, desaparecendo, tudo sendo soterrado, até aquele paraíso desaparecer. No lugar, ainda bem, há um pequeno bosque, que espero que nunca seja destruído. O fato é que o Tola Cavalo ficou muito triste e feio, além de muito mais quente, sem a sua “mininha”.

Tampas de concreto na ‘mininha’ escondem o córrego na região do Tola Cavalo (Foto: Paulo Piva)