Coluna ‘Traço Feminino’, por Hellen Santos
Um espaço acolhedor que trará de forma acessível assuntos necessários como direitos das mulheres, a luta das mulheres negras, a violência contra a mulher e o que fazer nessas situações, dentre outros temas relacionados à mulher.
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As mudanças que nada mudaram: O cotidiano invisível das mulheres negras de Itapira
Itapira continua linda. As ruas seguem “floridas”, os eventos voltaram com força, os discursos sobre igualdade ecoam em palanques e nas redes sociais. Mas, quando o assunto é a vida real das mulheres negras da cidade, a paisagem é a mesma, bonita na aparência, desigual na essência.
As mudanças que se anunciaram, na prática, pouco tocam o cotidiano de quem carrega duplas e triplas jornadas, de quem enfrenta o machismo, o racismo e o esquecimento institucional. A violência contra as mulheres ainda é uma ferida aberta, e a falta de ações efetivas só amplia a dor. As campanhas de conscientização surgem em datas específicas, mas o problema segue morando ao lado, silencioso, à espera de políticas públicas que saiam do papel e encontrem lugar seguro no coração e na prática da população.
Os números, ainda que não apareçam nas manchetes, falam por si: a maioria das mulheres negras continuam ocupando os empregos considerados “subalternos”. São elas que mantêm o ritmo das casas, dos supermercados e, muitas vezes, sem o reconhecimento ou o salário justo. Enquanto isso, os espaços de poder seguem quase impenetráveis. Mulheres negras com alta qualificação, diplomas e competência de sobra continuam sem serem lembradas quando chega a hora de escolher quem vai sentar à mesa das decisões. É um apagamento sistemático, travestido de meritocracia, que insiste em nos dizer que “ainda não é a hora”.
Nos últimos anos, algumas associações femininas nasceram com a promessa de mudar o cenário. Vieram com força, com projetos, com esperança. Mas, aos poucos, foram sendo esquecidas, não por falta de vontade, e sim por falta de investimento. O poder público segue falhando em garantir uma fatia justa do orçamento para apoiar quem faz o trabalho de base, de acolhimento e de transformação.
A verdade é que Itapira continua sendo a mesma para muitas mulheres: acolhedora no discurso, excludente na prática. Para as mulheres negras, além do patriarcado institucional, o racismo estrutural segue concentrando suas forças em nos paralisar, em nos empurrar para os mesmos lugares de sempre, aqueles onde o brilho das nossas conquistas é apagado antes mesmo de nascer. Mas seguimos. Seguimos porque resistir é verbo diário. Seguimos porque cada mulher negra que ousa ocupar espaço, que levanta a voz, que cria rede e que insiste em existir plenamente, é em si mesma um ato revolucionário. E é nessa insistência que, talvez um dia, as mudanças finalmente mudem.
“Eu não sei quantas vezes eu perdi, eu só sei que perdi todas as vezes que eu não lutei”
Por: Hellen Santos




