Gazeta Itapirense

Crônica: As galinhas do oitavo andar, por Rodrigo Alves de Carvalho

— Quem mora na roça sabe que as melhores “armas naturais” para combater escorpiões, cobras, ratos e outros tantos insetos e bichos indesejáveis, são as galinhas e outras aves específicas. Uma das melhores opções para esse fim, são as Galinhas-d’angola, que são conhecidas apenas como “galinhas” em Angola, na África – (na verdade, são chamadas de Galinha do Mato, Capota, Kanga ou Nkelele – depende da região do país). Esses galináceos com suas cabecinhas pequenas e corpos esquisitos (parecem um balão arredondado) são famosos por caçarem e comerem escorpiões, aranhas e baratas. E diferente do que se acredita, essa ave não sofre de nenhum déficit nutricional, o que pode confundir muita gente ao ouvi-las gritando pelo campo: “Tô fraco… tô fraco… tô fraco”.  Outra ave esquisita que grita muito, mas não faz parte da família dos galináceos é a Seriema. A Seriema é facilmente reconhecida pelas pernas relativamente compridas e o penacho característico acima do bico. Porém, a peculiaridade mais evidente é o seu grito estridente, que pode alcançar alguns quilômetros de distância. Na zona rural, a Seriema é conhecida e respeitada por ser um eximia caçadora de cobras. Já as galinhas comuns e domésticas, são “pau para toda obra”. Além de serem deliciosas assadas, fritas, cozidas e ao molho pardo, também nos fornecem ovos e trabalham gratuitamente no controle de pragas, bichos e insetos diversos. E engana-se quem pensa que o trabalho das galinhas se restringe apenas à zona rural. Muita gente da cidade também cria suas galinhas em casa, e, diga-se de passagem, são moradias totalmente livres de baratas, ratos e outros insetos asquerosos…

O porteiro, com um olhar desconfiado, observava o inquilino segurando o pequeno galinho Garnisé debaixo do braço, enquanto discorria sobre os benefícios em se ter uma galinha em casa.

— Seu Onofre. – Diz o porteiro. – Sei que o senhor morou algum tempo na zona rural antes de vir morar em nosso condomínio, mas essa é a sexta galinha seguida que traz para criar aqui.

— Acabei de te explicar que as galinhas servem para comer baratas e insetos que podem aparecer na minha casa. – Retrucou seu Onofre.

— Entendo seu Onofre. – Continuo o porteiro. – Mas o senhor mora num apartamento, no oitavo andar!

 

RODRIGO ALVES DE CARVALHO nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta, possui diversos prêmios em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas promovidas por editoras e órgãos literários.  Atualmente colabora com suas crônicas em conceituados jornais brasileiros e Blogs dedicados à literatura.

Em 2018, lançou seu primeiro livro intitulado “Contos Colhidos”, pela editora Clube de Autores. Trata-se de uma coletânea com contos e crônicas ficcionais, repleto de realismo fantástico e humor. Também pela editora Clube de Autores, em 2024, publicou o segundo livro: “Jacutinga em versos e lembranças” – coletânea de poemas que remetem à infância e juventude em Jacutinga, sua cidade natal, localizada no sul de Minas Gerais. Em 2025, publicou o terceiro livro “A saga de Picolândia” – série de relatos sociopolíticos acontecidos em Picolândia – uma pequena cidade do interior, cuja sua principal fonte de renda é a produção de sorvetes. Com um tom humorístico e irônico, com uma pitada de realismo fantástico, a obra reúne diversas crônicas engraçadas narradas por um morador desta cidade.