Gazeta Itapirense

2026: uma rara oportunidade para passar o Brasil a limpo

Chamou-me a atenção neste final de ano, uma entrevista publicada pelo jornal O ESTADO DE S. PAULO no dia 03 de dezembro, repercutindo um trabalho encomendado pelas organizações Globo com contribuição da Quaest Pesquisas, que resultou no livro “O Brasil no Espelho”, do cientista político Felipe Nunes, trabalho elaborado a partir de 10 mil entrevistas realizadas de forma presencial em 2 mil setores censitários de 340 cidades brasileiras, muito provavelmente, com o intuito de aferir o humor da sociedade brasileira em relação aos atores políticos do nosso país tendo em vista as eleições (quase) gerais de 2026.

O pleito de 2026 coloca em disputa cargos de presidente e vice-presidente da República, renovação de 2/3 do Senado Federal (cada estado irá eleger dois Senadores), renovação da Câmara Federal e Assembleias Legislativas, e não por acaso, são vistas como um evento da maior magnitude por grandes grupos econômicos.

Felipe Nunes é um dos mais proeminentes cientistas políticos da atualidade, que se insere centro daquilo que se convencionou chamar de “cenaristas”, daí a importância de suas análises.

Na referida entrevista, ele avalia que o brasileiro de uma forma geral ainda pensa e enxerga política como no final do século passado. Ele diz que apesar da polarização que tem marcado o cenário político nacional nos últimos 08 anos, considera que o eleitor é movido à percepção de bem estar, ou seja, não se deixa levar – no geral – por disputas ideológicas.

“Viver em um país cujos valores de hoje são muito parecidos aos de 1997 mostra que quem quer disputar a presidência em 2026, terá que produzir sensação de segurança para se manter no poder, ou, se quiser representar a mudança, incentivar ainda mais o medo e a insegurança na sociedade”, diz ele. Avalia que sem Bolsonaro na disputa, a fórmula que levou Lula à vitória em 2022 tem prazo de validade vencido.

“A cultura de uma sociedade é profundamente influenciada pela percepção de segurança e insegurança. Com isso conseguimos explicar porquê em momentos de guerra ou escassez, surgem sociedades mais conservadoras em que prevalecem valores tradicionais da religião e da família. O oposto ocorre quando há abundância e estabilidade. Quando as pessoas se sentem seguras física, econômica e socialmente, elas se permitem viver outros valores”, afirmou.

O autor avalia que embora houvesse durante um longo período a sensação de crescimento das condições gerais na melhora das condições econômicas de muitas pessoas (bandeira eterna do PT), esse processo sofreu uma interrupção, trazendo de volta a insegurança. Em sua análise, os brasileiros, “querem mais conservar do que inovar”. Esse raciocínio, na apresentação do autor, infere que a disputa eleitoral para a presidência, embora com um ligeiro favoritismo ao candidato Lula da Silva devido ao fato dele saber manipular soberbamente os instrumentos de que dispõe no usufruto do cargo de presidente da República, existe uma força poderosa (silenciosa na maioria das vezes) que questiona o atual presidente.

E cita novos elementos, como os “conservadores cristãos”, “empreendedores individuais” e o “liberal social” como capazes de influenciar a eleição a favor de um candidato com mensagem mais conservadora.

Felipe Nunes fala sobre a questão da insegurança como fator essencial para o discurso da oposição, mencionando que o brasileiro comum se mostra mais “punitivista”, mas não “armamentista” (‘totem sagrado’ da extrema direita), defendendo que a punição mais rigorosa deva vir do Estado e não das “próprias mãos”.

Ainda segundo o especialista, temas de difícil digestão para as pessoas comuns (como a questão dos gastos públicos) deverão ser apresentados durante a campanha, obrigando o eleitorado a se posicionar a respeito de um assunto que guarda relação direta com os rumos da economia, também aí, implicando necessariamente se identificar com o discurso “progressista” (que defende injeção de recursos públicos em programas sociais)  e o “conservador”, que exige controle dos gastos públicos com menor interferência do Estado como condicionante para sanear a economia do país, às voltas com um preocupante endividamento público e criar desta forma as bases para que o Brasil cresça de forma sustentável.

Ao encerrar sua fala, Felipe Nunes faz uma distinção entre eleitores de Bolsonaro, muitos dos quais, segundo sua análise, são classificados de forma equivocada como sendo “extrema direita”, acrescentando que uma parte expressiva deles são os “conservadores cristãos”. “São do agro, porque têm identidade com valores de quem vive em torno da terra. Você tem os empresários que são burgueses em sua essência, mas não são iguais à extrema direita”, pontua.

Com o se vê, muita coisa estará em jogo em 2026. Eu, particularmente, torço para que prevaleça o bom senso, que o país fuja do radicalismo que propõe soluções fáceis (e enganosas), que novas lideranças, com ideias arejadas despontem e saibam transmitir suas propostas. O Brasil precisa de mais equilíbrio, menos polarização e mais honestidade.

Nelson Theodoro Junior

Presidente da Associação Comercial e Industrial de Mogi Mirim (ACIMM)