Reservatório pronto há 5 anos segue sem uso enquanto bairros sofrem com falta d’água
A crise no abastecimento de água enfrentada por diversos bairros de Itapira no fim do último ano voltou a expor um problema estrutural que se arrasta há 5 anos: a existência de um reservatório de grande porte pronto, cheio, mas que ainda não foi interligado a outras regiões pelo prefeito Toninho Bellini. O caso do Reservatório Juvenal Leite evidencia falhas de planejamento, falta de prioridade e ausência de decisões concretas por parte da atual administração municipal.
Implantado com capacidade para armazenar 1,25 milhão de litros de água, o Reservatório Juvenal Leite foi construído com recursos do Governo do Estado de São Paulo, por meio do Convênio Sanebase nº 0.001/2019.
O investimento foi viabilizado durante a gestão do então prefeito José Natalino Paganini, com apoio decisivo do deputado estadual Totonho Munhoz. Paganini destacou a atuação do parlamentar como fundamental para a liberação dos recursos. Segundo ele, “Munhoz atuou de forma eficaz junto ao Governo do Estado, garantindo uma benfeitoria considerada estratégica para o município”.

Paganini conseguiu R$ 1.2000.000,00 (um milhão e duzentos mil reais) a fundo perdido, sem necessidade de pagamento algum por parte da Prefeitura de Itapira.
As obras tiveram início em novembro de 2019 e foram concluídas em abril de 2021, começo do terceiro mandado de Toninho Bellini. Em abril deste ano, portanto, o reservatório completa cinco anos pronto. Apesar disso, até hoje a estrutura não foi interligada ao sistema de distribuição de água da cidade, permanecendo, na prática, subutilizada. O reservatório está cheio, mas a água armazenada não chega a lugar algum.
A situação gera críticas contundentes, sobretudo porque o Distrito Industrial Juvenal Leite, além do Santa Bárbara, Santa Marta, Salgados, Santa Fé e diversos condomínios do entorno, poderiam estar sendo abastecidos por essa estrutura. Caso estivesse em operação, o reservatório teria potencial para minimizar ou até evitar episódios de desabastecimento, como os registrados no final do ano passado, quando moradores dessas regiões ficaram dias sem água.

Para moradores e especialistas, o cenário representa desperdício de um investimento público relevante e evidencia a falta de articulação da atual gestão para transformar a obra em um benefício efetivo à população. Cinco anos após a conclusão, a ausência de interligação levanta questionamentos sobre prioridades administrativas e planejamento a médio e longo prazo.
Nossa reportagem ouviu, sob a condição de anonimato, pessoas que trabalham na área técnica do SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto). Todos foram taxativos em afirmar que não dá pra entender o motivo pelo qual não foi feita a interligação do reservatório do Juvenal Leite.
“O mais difícil é conseguir construir um reservatório daquele tamanho e ele tá lá, pronto, cheio de água que não vai pra lugar nenhum. Tudo bem que precisa de investimento pra levar para os bairros, mas é essencial, necessário e era pra tá pronto. Vai fazer cinco anos que tá pronto”, explicou uma fonte.
Questionada sobre o motivo de o reservatório não estar em operação, a Prefeitura de Itapira informou, por meio de nota, que o convênio firmado à época não previa a travessia sob a Rodovia SP-147 nem a extensão da rede até o setor Santa Fé e bairros adjacentes. Segundo o Executivo, tanto o convênio quanto o projeto das obras, idealizados na gestão 2017/2020, não contemplaram a interligação do reservatório com essas regiões.
Ainda de acordo com a administração municipal, a ligação seria possível por meio da implantação de uma adutora de água tratada, com travessia sob a rodovia SP-147, mas é considerada uma obra de alto custo. A prefeitura afirma que, devido ao déficit financeiro enfrentado durante o período da pandemia, não foi possível executar essa etapa.
Mas a pandemia acabou há praticamente 4 anos e até agora não foi feita a necessária obra de interligação. Teve dinheiro para tantos projetos faraônicos e menos urgentes, como a reforma do Mercadão (R$ 9 milhões), prolongamento da avenida Davi Moro (R$ 15 milhões), entre outras.
A nota da prefeitura também sustenta que, mesmo com o reservatório em operação, seriam necessárias manobras no sistema que poderiam interromper o abastecimento do próprio Distrito Industrial Juvenal Leite, especialmente em situações de desabastecimento generalizado, como o ocorrido recentemente.
Apesar das justificativas apresentadas, o fato concreto é que Itapira possui hoje um reservatório de grande capacidade, financiado com recursos públicos a fundo perdido, que permanece sem cumprir sua finalidade principal. Para a população afetada pela falta de água, o argumento técnico e financeiro não elimina a sensação de abandono e de falta de planejamento.
Em cinco anos destes dois últimos mandatos de Toninho Bellini (22021 a 2025) foram feitas tantas obras e gastos tantos milhões que poderiam ter sido remanejados para interligar o reservatório.
O episódio reforça a percepção de que a cidade paga o preço de decisões adiadas, enquanto um equipamento estratégico segue parado, simbolizando um problema que vai além da engenharia e alcança diretamente a gestão pública e suas escolhas.



