Professor, artesão e memória viva de Itapira: a trajetória de seo Alcindo aos 95 anos
A história de Itapira também é contada por pessoas que, com simplicidade e dedicação, ajudaram a formar gerações e a preservar ofícios que o tempo insiste em apagar. Aos 95 anos, o professor de História Antônio Alcindo Torezan carrega uma trajetória marcada pelo ensino, pelo trabalho manual e por uma relação profunda com a comunidade onde viveu e construiu sua vida.
Ele e sua filha Maria Amélia receberam a reportagem da Gazeta em casa na tarde desta segunda-feira, 05. Continua com o mesmo bom humor que o marcou, a voz grossa e a simpatia ímpar. Só não tem mais a Brasília branca que por anos o acompanhou.
Aposentado há 31 anos, seo Alcindo — como é carinhosamente conhecido — lecionou por muitos anos na Escola Estadual Dr. Júlio Mesquita, onde deixou marcas não apenas pelo conteúdo das aulas, mas pela postura serena, pelo diálogo e pelo amor à educação.

Fora da sala de aula, dividia o tempo entre outra paixão: a pescaria, e um ofício artesanal que o acompanha há décadas, o empalhamento de móveis.
Muitos ex-alunos seus vão se lembrar de quando, no intervalo do recreio, seo Alcindo aproveitava o tempo livre para empalhar peças que trazia de casa.
O contato com o trabalho manual começou ainda jovem, quando teve aulas de trabalhos manuais na Escola Elvira Santos de Oliveira (ESO). Foi ali que aprendeu o ofício com o saudoso José Silveira, conhecido como Zé Barulho, referência na arte do empalhamento na época. A partir desse aprendizado, seo Alcindo nunca mais se afastou da palhinha indiana, material que utilizava tanto na versão natural, importada, quanto na sintética.
Ao longo de cerca de 80 anos de atividade, restaurou e deu nova vida a cadeiras, sofás, namoradeiras e inúmeros outros móveis. Também trabalhou com bambu e taboa, sempre com o olhar atento de quem respeita a matéria-prima e a história de cada peça.

Seu trabalho ultrapassou os limites de Itapira, chegando a cidades como Mogi Mirim, Mogi Guaçu, Campinas, Santo Antônio de Posse, Amparo, além de municípios do Circuito das Águas e do Sul de Minas Gerais. Diga-se de passagem, seo Alcindo é natural de Santo Antônio de Posse de onde veio para estudar.
A ligação com a madeira e o artesanato também veio da família. Seo Alcindo trabalhou por muitos anos com o sogro, que era carpinteiro e marceneiro, atuando também com empalhamento. Com a morte do sogro, foi ele quem deu continuidade ao trabalho, mantendo viva a tradição.
Além de exercer o ofício, também fez questão de ensinar. Um de seus aprendizes foi José Evaristo, hoje reconhecido como o artesão que mantém esse tipo de trabalho ativo na cidade. A própria filha de seo Alcindo, Maria Amélia, é quem indica o ex-aluno do pai para quem busca esse serviço, numa demonstração de confiança e continuidade.
A tradição segue também dentro de casa. O filho João Carlos Zázera Torezan transformou o aprendizado em hobby e parceria. Enquanto o pai prepara a palhinha indiana, João Carlos a aplica em peças decorativas como abajures, porta-joias, bandejas, porta-velas, cachepôs que envolvem vasos, porta-chaves e outros objetos, unindo o saber antigo a novas possibilidades.
Hoje, aos 95 anos, Antônio Alcindo Torezan representa mais do que um professor aposentado ou um artesão experiente. Ele é um símbolo de uma geração que ensinou dentro e fora da escola, que trabalhou com as mãos e com o coração, e que deixou um legado de conhecimento, paciência e amor pelo que faz.
Uma história que merece ser lembrada, valorizada e passada adiante.




