Dengue, lixo e descaso: o retrato de Itapira, por Tiago Fontolan
Desde 2021, quando a atual administração assumiu a Prefeitura de Itapira, a cidade passou a viver sob uma gestão marcada mais pela improvisação do que pelo planejamento. É verdade que o primeiro ano foi desafiador — ainda lidávamos com os efeitos diretos da pandemia —, mas já ali era possível perceber sinais de falta de comando e de prioridades mal definidas. O que se via era uma administração que reagia aos problemas, mas raramente se antecipava a eles. E o tempo só agravou essa percepção. Passados os primeiros anos, o que restou foi uma gestão apática, distante da realidade da população e cada vez mais dissonante das reais necessidades do município.
A partir de 2022, já em um cenário de “novo normal”, o que se esperava era um planejamento estratégico que permitisse reorganizar os serviços públicos e garantir estabilidade. Em vez disso, o que se viu foi o início de um ciclo de abandono e desgoverno que se agravou com o tempo.
Em 2023 e 2024, a cidade foi tomada por uma explosão de casos de dengue. O mato alto e o lixo acumulado viraram cenário comum, revelando um problema estrutural de limpeza urbana e controle de vetores. A situação foi agravada pela contratação desastrosa de uma nova empresa para coleta de lixo. O contrato foi assinado em abril de 2024 — e em menos de um mês, a empresa já enfrentava greve por falta de condições mínimas de trabalho: caminhões velhos, frota insuficiente, desorganização total. A prefeitura? Silente. O poder público assistiu passivamente enquanto o serviço básico de coleta de lixo entrava em colapso.
A dengue avançava, os moradores adoeciam, e a resposta veio com atraso: R$ 500 mil em livrinhos educativos para crianças. Uma iniciativa válida, sem dúvida, mas que soa como paliativo diante da urgência sanitária que exigia ação direta, imediata e firme. Livros não substituem mutirões, limpeza, pulverização e fiscalização.
Na mesma linha do descaso, o SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgotos de Itapira) segue como símbolo do desleixo. Vazamentos se espalham por toda a cidade, sem solução definitiva. Há anos, a população convive com ruas afundadas, água desperdiçada e prejuízo financeiro. Mais grave ainda: a Estação de Tratamento de Esgoto opera sem licença e continua lançando esgoto no rio. O crime ambiental, aparentemente, virou rotina.
Enquanto os serviços essenciais falham, o dinheiro público flui com facilidade para outro destino: o entretenimento. Só no mês de julho de 2025, mais de R$ 1,4 milhão foram gastos em shows musicais bancados com recursos públicos. Os mesmos valores se repetem em anos anteriores. A estratégia é antiga e conhecida: pão e circo. Dá-se o circo à população na tentativa de desviar a atenção do caos que se instala nos bastidores.
E, de fato, muitas vezes funciona. A música alta encobre o barulho das ambulâncias sem insumo. As luzes dos palcos ofuscam os vazamentos nas ruas. O público vibra enquanto o lixo se acumula nas calçadas. O entretenimento se torna anestesia coletiva, uma distração momentânea que custa caro — muito caro — para os cofres públicos.
É preciso romper esse ciclo. Uma cidade não se sustenta com shows. Uma gestão não se mede por aplausos em festas, mas por resultado no dia a dia do povo. E o povo de Itapira merece mais do que migalhas embaladas em fogos de artifício. Merece saúde funcionando, limpeza urbana eficiente, planejamento, transparência e, acima de tudo, respeito.
O que está em jogo não é apenas o dinheiro público. É a dignidade de um povo inteiro que, a cada dia, paga o preço do descaso.
Por: Thiago Fontolan